quarta-feira, 11 de julho de 2012

(conto) O quarto.



"Light up, light up
As if you have a choice
Even if you cannot hear my voice
I'll be right beside you, dear"
-  (Run - Snow Patrol)

Naquele momento, o medo lhes gritava mais alto aos ouvidos e a única coisa na qual pensavam era correr para salvar suas vidas. Desviavam de carros, escorregavam no chão úmido da rua e imploravam, em pensamentos urgentes, para que alguém os socorresse. Caso contrário, não sairiam vivos daquela perseguição. Corriam o mais rápido que suas pernas podiam aguentar, porém os dois rapazes não largavam as mãos, que tinham seladas e apertavam, como se, daquela forma, as suas forças se unissem e os tornassem mais enérgicos nas passadas. O assaltante já tinha lhes roubado tudo, dinheiro, carteiras, aparelhos eletrônicos. Que mais ele poderia querer?
Enveredaram-se, por fim, por um beco estreito e inóspito, para, em seguida, estagnarem de frente para uma alta parede que se erguia e fechava a passagem. Não havia as saída, nem daquela viela não para Geovanni e Pietro. Não demorou muito para que o assaltante os alcançasse e, mirando na direção deles, realizasse dois disparos consecutivos. Poucos instantes antes que as balas os atingisse, Giovanni deslocou-se para a frente de Pietro, protegendo-o, e o que se seguiu foi o sangue vertendo furtivamente do seu peito perfurado pelos tiros.

- Você não devia ter feito isso – Pietro sorria carinhoso, ao tempo em que olhava com curiosidade as ataduras amarradas ao peito de Giovanni. Os dois encontravam-se deitados na cama, no quarto de Pietro. Nos últimos dias, não tinham mais visto a luz do sol, pois o medo de deixar o quarto os assombrava.
- O que você achou que eu faria?! – Giovanni perguntou, ajeitando-se, no colo de Pietro e sentindo uma fisgada poderosa no lugar dos curativos. – Eu não deixaria que ele matasse você.
- Você é maluco, meu amor – dizendo isso, encostou levemente os lábios nos lábios do namorado. – E por causa dessa sua maluquice, nós não vamos sair nunca mais desse quarto – seu tom resoluto era mesclado com ares de brincalhão.
- Como não vamos sair? – Pietro acariciava a mão do rapaz. – Esse quarto é escuro demais. Você não abre as janelas, não deixa o sol entrar, não quer ouvir ninguém e insiste em ignorar o mundo lá fora.
- Mas o mundo lá fora é perigoso e cruel demais – Pietro refletia, os olhos perdidos nas paredes do quarto, enquanto acarinhava os cabelos de Giovanni. – Ele nos dá e nos rouba as coisas que mais amamos sem qualquer motivo.
- Sabe, amor, eu não tenho muito no que acreditar, mas de uma coisa eu tenho certeza. Existe uma força que rege tudo o que acontece em nossas vidas e dá propósito para absolutamente tudo o que acontece. Nós crescemos e aprendemos com a vida. A gente não pode temer o mundo, ou se esconder dentro de um quarto escuro, como você está fazendo, porque o tempo passa muito rápido e, quando nos damos conta, a areia que escorre pela ampulheta já está quase no fim.
- Eu não posso sair desse quarto, meu amor – Pietro insistia. – Aqui estamos mais seguros, ninguém pode nos importunar e nada de ruim poderá nos acontecer. Nós ainda somos muito jovens, ainda moramos com os nossos pais, acabamos de descobrir a vida, não precisamos sair daqui e enfrentar toda essa vida sem sentindo.
- O amor que eu sinto por você é tão grande – os olhos de Giovanni mergulharam no olhar vago de Pietro. – Por que você não usa esse amor que sinto para tomar coragem e sair desse quarto? Lá fora, tem água fresca, tem brisa e ar limpo, mais leve, tem o brilho do sol e o frio das gotas de chuva, no final da tarde. Sem falar que esse quarto é pequeno demais para comportar o tamanho do amor que nós temos um pelo outro. As feridas vão cicatrizar, amor – e passou as mãos sobre os seus curativos. – Você vai ver. Nada é eterno, nem mesmo a dor ou o sofrimento. O tempo trata de nos acalantar e cuidar do que está machucado.
- Mas e os planos que nós fizemos juntos de ficar aqui dentro, abraçados até o dia em que quisermos? Nós podemos ter um ao outro aqui dentro, benzinho. Eu sei que o quarto é escuro, dá um pouco de medo, meu eu tenho você e você tem a mim. Você é a luz que me ilumina enquanto permaneço aqui dentro.
- Vamos usar o nosso amor para concretizar os nossos planos, mas eles não precisam ser realizados nesse quarto, meu amor. Somos jovens e ainda temos a vida inteira pela frente.
- Mas eu te amo tanto – Pietro dizia, feito criança choramingando.
- Eu também te amo, e vai ser esse amor que vai te manter forte e sem medo do mundo. Esse amor que vai te fazer enfrentar todos os obstáculos que ainda estão por vir, lá fora. A vida pode possuir dificuldade, amor, mas sair vencedor dela é que é gratificante.
- Eu não quero deixar esse quarto, meu amor – dizendo isso, apertou ainda mais forte Giovanni, num abraço caloroso, como se seus corpos fossem se fundir. – Eu te amo. Eu nunca vou te deixar.
 - E eu vou estar sempre com você, benzinho...
Pelo quarto, ressoou o barulho de duas batidas leves na porta. Em seguida, o pai de Pietro abriu-a, deixando que a luz vinda do corredor iluminasse, parcialmente, a escuridão do cômodo.
- Meu filho, você precisa sair daqui – dizia, aproximando-se de Pietro. – Já passou muito tempo.
Pietro encontrava-se encolhido no canto da cama, abraçado fortemente a um travesseiro, chorando copiosamente, desiludido.
- Ele morreu, pai... – falava entre soluços, entrelaçado ao travesseiro. – Ele morreu...
- Eu sei, meu filho – o pai de Pietro envolveu o filho num abraço carinhoso, beijando-lhe a cabeça. – Mas a vida não termina quando as coisas acabam...

Tiago Santos

3 comentários:

  1. Parabéns, primeiramente, por escrever.
    Quem dera fosse um hábito universal.
    Eu não costumo tentar adivinhar o rumo das histórias enquanto leio, mas nessa eu me perguntei 'por que diabos o bandido não atirou nos dois?!'. E a resposta veio como uma surpresa, ao final, um belo final.

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  3. Oi Thiago!Curti seu conto,super romantico ;) beijos mordidos!

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