"Light up, light up
As if you have a choice
Even if you cannot hear my voice
I'll be right beside you, dear"
- (Run - Snow Patrol)
Naquele
momento, o medo lhes gritava mais alto aos ouvidos e a única coisa na qual
pensavam era correr para salvar suas vidas. Desviavam de carros, escorregavam
no chão úmido da rua e imploravam, em pensamentos urgentes, para que alguém os
socorresse. Caso contrário, não sairiam vivos daquela perseguição. Corriam o
mais rápido que suas pernas podiam aguentar, porém os dois rapazes não
largavam as mãos, que tinham seladas e apertavam, como se, daquela forma, as
suas forças se unissem e os tornassem mais enérgicos nas passadas. O assaltante
já tinha lhes roubado tudo, dinheiro, carteiras, aparelhos eletrônicos. Que
mais ele poderia querer?
Enveredaram-se,
por fim, por um beco estreito e inóspito, para, em seguida, estagnarem de
frente para uma alta parede que se erguia e fechava a passagem. Não havia as
saída, nem daquela viela não para Geovanni e Pietro. Não demorou muito para que
o assaltante os alcançasse e, mirando na direção deles, realizasse dois
disparos consecutivos. Poucos instantes antes que as balas os atingisse, Giovanni
deslocou-se para a frente de Pietro, protegendo-o, e o que se seguiu foi o
sangue vertendo furtivamente do seu peito perfurado pelos tiros.
-
Você não devia ter feito isso – Pietro sorria carinhoso, ao tempo em que olhava
com curiosidade as ataduras amarradas ao peito de Giovanni. Os dois encontravam-se
deitados na cama, no quarto de Pietro. Nos últimos dias, não tinham mais visto
a luz do sol, pois o medo de deixar o quarto os assombrava.
-
O que você achou que eu faria?! – Giovanni perguntou, ajeitando-se, no colo de
Pietro e sentindo uma fisgada poderosa no lugar dos curativos. – Eu não
deixaria que ele matasse você.
-
Você é maluco, meu amor – dizendo isso, encostou levemente os lábios nos lábios
do namorado. – E por causa dessa sua maluquice, nós não vamos sair nunca mais
desse quarto – seu tom resoluto era mesclado com ares de brincalhão.
-
Como não vamos sair? – Pietro acariciava a mão do rapaz. – Esse quarto é escuro
demais. Você não abre as janelas, não deixa o sol entrar, não quer ouvir
ninguém e insiste em ignorar o mundo lá fora.
-
Mas o mundo lá fora é perigoso e cruel demais – Pietro refletia, os olhos
perdidos nas paredes do quarto, enquanto acarinhava os cabelos de Giovanni. –
Ele nos dá e nos rouba as coisas que mais amamos sem qualquer motivo.
-
Sabe, amor, eu não tenho muito no que acreditar, mas de uma coisa eu tenho
certeza. Existe uma força que rege tudo o que acontece em nossas vidas e dá
propósito para absolutamente tudo o que acontece. Nós crescemos e aprendemos
com a vida. A gente não pode temer o mundo, ou se esconder dentro de um
quarto escuro, como você está fazendo, porque o tempo passa muito rápido e,
quando nos damos conta, a areia que escorre pela ampulheta já está quase no
fim.
-
Eu não posso sair desse quarto, meu amor – Pietro insistia. – Aqui estamos mais
seguros, ninguém pode nos importunar e nada de ruim poderá nos acontecer. Nós
ainda somos muito jovens, ainda moramos com os nossos pais, acabamos de
descobrir a vida, não precisamos sair daqui e enfrentar toda essa vida sem sentindo.
-
O amor que eu sinto por você é tão grande – os olhos de Giovanni mergulharam no
olhar vago de Pietro. – Por que você não usa esse amor que sinto para
tomar coragem e sair desse quarto? Lá fora, tem água fresca, tem brisa e ar
limpo, mais leve, tem o brilho do sol e o frio das gotas de chuva, no final da
tarde. Sem falar que esse quarto é pequeno demais para comportar o tamanho do
amor que nós temos um pelo outro. As feridas vão cicatrizar, amor – e passou as
mãos sobre os seus curativos. – Você vai ver. Nada é eterno, nem mesmo a dor ou
o sofrimento. O tempo trata de nos acalantar e cuidar do que está machucado.
-
Mas e os planos que nós fizemos juntos de ficar aqui dentro, abraçados até o
dia em que quisermos? Nós podemos ter um ao outro aqui dentro, benzinho. Eu sei
que o quarto é escuro, dá um pouco de medo, meu eu tenho você e você tem a mim.
Você é a luz que me ilumina enquanto permaneço aqui dentro.
-
Vamos usar o nosso amor para concretizar os nossos planos, mas eles não
precisam ser realizados nesse quarto, meu amor. Somos jovens e ainda temos a
vida inteira pela frente.
-
Mas eu te amo tanto – Pietro dizia, feito criança choramingando.
-
Eu também te amo, e vai ser esse amor que vai te manter forte e sem medo do
mundo. Esse amor que vai te fazer enfrentar todos os obstáculos que ainda estão
por vir, lá fora. A vida pode possuir dificuldade, amor, mas sair vencedor dela
é que é gratificante.
-
Eu não quero deixar esse quarto, meu amor – dizendo isso, apertou ainda mais
forte Giovanni, num abraço caloroso, como se seus corpos fossem se fundir. – Eu
te amo. Eu nunca vou te deixar.
- E eu vou estar sempre com você, benzinho...
Pelo
quarto, ressoou o barulho de duas batidas leves na porta. Em seguida, o pai de
Pietro abriu-a, deixando que a luz vinda do corredor iluminasse, parcialmente,
a escuridão do cômodo.
-
Meu filho, você precisa sair daqui – dizia, aproximando-se de Pietro. – Já passou
muito tempo.
Pietro
encontrava-se encolhido no canto da cama, abraçado fortemente a um travesseiro,
chorando copiosamente, desiludido.
-
Ele morreu, pai... – falava entre soluços, entrelaçado ao travesseiro. – Ele morreu...
-
Eu sei, meu filho – o pai de Pietro envolveu o filho num abraço carinhoso,
beijando-lhe a cabeça. – Mas a vida não termina quando as coisas acabam...
Tiago Santos

Parabéns, primeiramente, por escrever.
ResponderExcluirQuem dera fosse um hábito universal.
Eu não costumo tentar adivinhar o rumo das histórias enquanto leio, mas nessa eu me perguntei 'por que diabos o bandido não atirou nos dois?!'. E a resposta veio como uma surpresa, ao final, um belo final.
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ResponderExcluirwww.aliterata.wordpress.com ou www.asurrealidade.blogspot.com.br
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Oi Thiago!Curti seu conto,super romantico ;) beijos mordidos!
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