quinta-feira, 24 de maio de 2012

(conto) De saínda.


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“Nada que nos acontece é por acaso. Você me provou. Por isso, as lágrimas me veem aos olhos só de pensar no que vou fazer. Então, meu amor, depois que ler essa carta, não se entristeça nem se apresse em vir me buscar. Estarei preparando a nossa casa para quando você chegar. Eu te amo.
- Miguel

O destino trata de colocar em nossas vidas as pessoas que nos fará bem e que também irá nos machucar de alguma forma. No entanto, ele não se esquece de sinalizar as que ficam e as que vão embora. Aquelas que permanecem são as que pintam sorrisos em nossos lábios, pulos aos nossos pés, deixam a respiração ofegante pelo simples fato de estarem perto. Bom, as que esquecemos, dessas não vale a pena falar. Ele traça seus caminhos e faz com que quem deve se encontrar não demore.
Foi assim com Felipo. Encontrava-se em tamanha conturbação com o final do semestre, na faculdade, que nem sequer tinha tempo para perceber o quão solitário se encontrava o seu coração, sedento por um afago, palavras doces, por um olhar que lhe confortasse. De garotas já não mais servia. Desde que havia deixado as casas dos pais, Felipo havia resolvido assumir-se por completo, não tendo vergonha do seu amor por outros rapazes. Aquele era ele, ninguém o poderia mudar. Desgostosos, mãe e pai, a princípio, fizeram-se implacáveis, porém o tempo tratou de amolecê-los, e já agora não podiam passar um dia que fosse sem ligar para Felipo e saber a quantas andavam a sua nova empreitada de morar sozinho.
Apesar de todas as dificuldades que enfrenta um jovem estudante de dezenove anos, sua vida ia muito bem, obrigado. Tinha um belo apartamento dado pelos pais, amigos compreensíveis, os quais o encontravam diariamente, na faculdade e em casa. Mas alguém para partilhar a vida era o que lhe faltava. Mas, também, nisso o destino tratou de dar o seu jeito. Rabiscou mais duas linhas nas páginas da vida e fez com que, num dia desses que a gente pensa que não irá acontecer nada muito interessante, Felipo atropelasse, por distração, um outro rapaz que saía do campus. Nervoso, Felipo saltou do carro e correu em direção ao acidentado, que ainda permanecia no chão.
- Ai, meu Deus, o que eu fiz...?! – dizia, desajeitado, agachando-se ao lado do rapaz atropelado. – Você está bem?! Mas que pergunta, Felipe! É claro que ele não está bem. Só um instante, vou chamar uma ambulância...! – meteu a mão no bolso, para pegar o celular, mas a mão cálida do rapaz no chão segurou-o com carinho.
- Não precisa – ele falou, esboçando um sorriso incrivelmente terno. Para Felipo, foi inevitável não mergulhar naquele olhar azul-cobalto que o mirava tão meigo. – Eu estou bem...a culpa foi minha. Caminha distraído e nem percebi o seu carro. Me ajude a levantar, por favor...
- Ainda assim, por favor, vamos ao hospital... – Felipo insistia, enquanto ajudava-o a se erguer do chão. – Tenho medo te ter machucado você – quando os dois ficaram de pé novamente, face a face, os olhares mergulhados um no outro, as palavras já lhes faltavam e a respiração era entrecortada. – Eu insisto... – Felipo disse.
- Você pode me dar uma carona – sugeriu o rapaz. – O que acha...? Assim, você tem certeza de que eu estou bem e eu não chego atrasado ao meu compromisso. Pode ser? – a voz quase sussurrada inebriava Felipo.
- Tudo bem – respondeu convencido, vencido pelo falar doce do rapaz. – Mas, se você sentir alguma coisa, esteja ciente: você vai para o hospital.
- Combinado – o rapaz sorriu e estendeu-lhe a mão. – Miguel...
- Prazer, Felipo.

A carona foi apenas o pretexto para que se aproximassem. Isso, mais uma vez, foi peripécia do destino. Despois do atropelamento, passaram a se encontrar com maior frequência pelos corredores da faculdade e nos restaurantes da cidade. Em seus conversas, percebiam que eram mais parecidos do que poderiam ter imaginado. Ouviam os meus cantores, liam os mesmos livros, assistiam aos mesmos filmes e quase faziam as mesmas coisas. Miguel passou a integrar o grupo de amigos de Felipo, e Felipo tratou de conhecer as pessoas com as quais Miguel se relacionava. Felipo passava a compreender que, mais do que terminar o semestre da faculdade, ele estava precisando apaixonar-se, e, sabia, aquilo acontecia naquele momento. Ouvir a voz suave de Miguel, avistar seus olhos azuis e cabelos extremamente negros em desalinhos fazia-o perder o prumo.
A vontade de se aproximar ainda mais dele figurava-se tamanha que, de quando em vez, não mensurava as consequências que podiam trazer suas ações. Apenas as fazia. Na faculdade, quando o via chegar, corria ao seu encontro e abraçava-o apertado, beijando-lhe a bochecha, como faz uma criança. Miguel gargalhava, retribuindo o sorriso e o abraço. Por vezes, caminham, distraidamente, de mãos dadas pelo campus, conversando besteiras e rindo com outros amigos. Porém isso não bastava.
Num final de uma tarde chuvoso, enquanto saíam juntos da faculdade, Felipo escorreu em um dos degraus molhados da escada e foi violentamente ao chão. Machucando o braço e cortando o lábio superior, que sangrava furtivamente. Assustado, Miguel amparou-o, pegando-o no colo, despreocupado com o temporal violento que caía sobre os dois. A sua preocupação era apena Felipo.
- Você se machucou – disse Miguel, com Felipo no colo, olhando o corte no seu lábio. – Vem. Eu vou cuidar disso...
- Espera – Felipo falou, ainda no colo de Miguel, com o rosto lavado pela chuva. A água se misturando ao sangue. – Me deixa fazer isso...
Então, passou a mão pela nuca de Miguel e trouxe o rosto do rapaz de encontro ao seu. As respirações pararam quando seus narizes se tocaram e seus olhares ficaram tão próximos. Miguel podia sentir os lábios ensanguentados de Felipe pertos dos seus. Não tinha certeza de que queria fazer aquilo. Apenas o fez. Sorveu os lábios de Felipe, segurando-o no colo, num beijo profundo e demorado. A chuva os lavava, e o amor lava suas almas.

Depois daquele temporal, os dias de sol que se seguiram serviram para iluminar ainda mais o caminho dos dois. Já não faziam mais nada um longe do outro. Todos os viam sempre juntos. E, se juntos não estivessem, estariam tristes, pensando no que o outro estava a fazer. Então, restava o celular para encurtar as distâncias. Passam horas a fio falando quaisquer coisas, num diálogo fático, onde havia mais o silêncio das palavras e o falar dos corações palpitando.
Porém a felicidade alheia tende a incomodar quem é triste e rancoroso, que vive sedento por arruinar o contentamento dos outros. Assim aconteceu. Um amigo dos pais de Miguel, vendo o rapaz beijando-se com outro, num parque público da cidade, tratou de ligar para a família e contar a cena “horripilante” que havia presenciado. A notícia se espalhou como faísca em pólvora, correndo os quatros cantos de uma cidade pequena, onde qualquer coisa é motivo para movimentação de línguas afiadas.
- Então é isso! – bradava o pai de Miguel. – Você é veado! – o rapaz não dizia nada. Apenas ouvia os gritos do pai e olhar de reprovação da mãe. – Eu não te criei para viver essa vida de gay!
- Eu só não escolhi, pai, pode ter certeza – Miguel tentava se explicar.
- Não me chama de pai! – esbravejou. – Eu não tenho filho veado! A cidade inteira está rindo de mim e da sua mãe, por sua causa....eu tenho vergonha de você, Miguel.

Seria mais fácil se tivessem fugido enquanto tinham tempo; fugido antes que toda a cidade descobrisse o relacionamento dos dois e passasse a os apontar nas ruas, sussurrando maldizeres que os deixavam retraídos. A família de Felipo se manteve presente, dando apoio aos dois, mas só isso não seria suficiente. Miguel, desde a discussão com os pais, perdera o sorriso brilhante que trazia nos lábios e no olhar. Quase não mais saía às ruas, não ia à faculdade. Desejava somente permanecer no colo de Felipo e esquecer o mundo. O mundo tão estranho que não o aceitava da maneira que ele era, que preferia vê-lo vivendo uma eterna mentira do que sendo feliz. Um mundo onde o normal se fez inaceitável. Esse mundo Miguel não podia compreender.
- Eu te amo – repetia Felipo sempre que estavam juntos. – Eu te amo. Isso é tudo o que importa.
Contudo, certo dia, quanto chegou da faculdade, encontrou o apartamento vazio, e não ouvia o som do violão que Miguel costumava tocar para ele quando sabia que estava perto da hora de chegar da aula. Procurou-o em todos os cômodos, não o encontrou. Então, resolveu ligar no seu celular. Para a sua surpresa, o aparelho tocava em algum lugar dentro do apartamento. Receoso, Felipo seguiu, buscando pelo celular que tocava. Entrou novamente no quarto e, só então, percebeu que havia um bilhete sobre a cama. Ao lado do bilhete, estava o celular.
Leu as letras bem desenhadas do amado e as lágrimas vieram aos seus olhos. As palavras não diziam muita coisa, mas Felipo sabia o que queriam significar. Desesperado, olhou para o outro lado do quarto e a janela estava aberta. A brisa soprando nas cortinas. Correu até ela e debruçou-se sobre o parapeito. A certeza agora é inteira, e, por tal razão, sentiu-se sem vida, sem ar, o desespero dominando, as lágrimas molhando o bilhete nas mãos. Miguel havia encontrado a saída mais fácil da prisão na qual o mundo o havia colocado.

“Estarei preparando a nossa casa para quando você chegar. Eu te amo.
- Miguel

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Tiago Santos

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