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“Nada que nos acontece é por acaso.
Você me provou. Por isso, as lágrimas me veem aos olhos só de pensar no que vou
fazer. Então, meu amor, depois que ler essa carta, não se entristeça nem se
apresse em vir me buscar. Estarei preparando a nossa casa para quando você
chegar. Eu te amo.
- Miguel”
O
destino trata de colocar em nossas vidas as pessoas que nos fará bem e que
também irá nos machucar de alguma forma. No entanto, ele não se esquece de
sinalizar as que ficam e as que vão embora. Aquelas que permanecem são as que
pintam sorrisos em nossos lábios, pulos aos nossos pés, deixam a respiração
ofegante pelo simples fato de estarem perto. Bom, as que esquecemos, dessas não
vale a pena falar. Ele traça seus caminhos e faz com que quem deve se encontrar
não demore.
Foi
assim com Felipo. Encontrava-se em tamanha conturbação com o final do semestre,
na faculdade, que nem sequer tinha tempo para perceber o quão solitário se
encontrava o seu coração, sedento por um afago, palavras doces, por um olhar
que lhe confortasse. De garotas já não mais servia. Desde que havia deixado as
casas dos pais, Felipo havia resolvido assumir-se por completo, não tendo
vergonha do seu amor por outros rapazes. Aquele era ele, ninguém o poderia
mudar. Desgostosos, mãe e pai, a princípio, fizeram-se implacáveis, porém o
tempo tratou de amolecê-los, e já agora não podiam passar um dia que fosse sem
ligar para Felipo e saber a quantas andavam a sua nova empreitada de morar
sozinho.
Apesar
de todas as dificuldades que enfrenta um jovem estudante de dezenove anos, sua
vida ia muito bem, obrigado. Tinha um belo apartamento dado pelos pais, amigos
compreensíveis, os quais o encontravam diariamente, na faculdade e em casa. Mas
alguém para partilhar a vida era o que lhe faltava. Mas, também, nisso o
destino tratou de dar o seu jeito. Rabiscou mais duas linhas nas páginas da
vida e fez com que, num dia desses que a gente pensa que não irá acontecer nada
muito interessante, Felipo atropelasse, por distração, um outro rapaz que saía
do campus. Nervoso, Felipo saltou do carro e correu em direção ao acidentado,
que ainda permanecia no chão.
-
Ai, meu Deus, o que eu fiz...?! – dizia, desajeitado, agachando-se ao lado do
rapaz atropelado. – Você está bem?! Mas que pergunta, Felipe! É claro que ele
não está bem. Só um instante, vou chamar uma ambulância...! – meteu a mão no
bolso, para pegar o celular, mas a mão cálida do rapaz no chão segurou-o com
carinho.
-
Não precisa – ele falou, esboçando um sorriso incrivelmente terno. Para Felipo,
foi inevitável não mergulhar naquele olhar azul-cobalto que o mirava tão meigo.
– Eu estou bem...a culpa foi minha. Caminha distraído e nem percebi o seu
carro. Me ajude a levantar, por favor...
-
Ainda assim, por favor, vamos ao hospital... – Felipo insistia, enquanto
ajudava-o a se erguer do chão. – Tenho medo te ter machucado você – quando os
dois ficaram de pé novamente, face a face, os olhares mergulhados um no outro,
as palavras já lhes faltavam e a respiração era entrecortada. – Eu insisto... –
Felipo disse.
-
Você pode me dar uma carona – sugeriu o rapaz. – O que acha...? Assim, você tem
certeza de que eu estou bem e eu não chego atrasado ao meu compromisso. Pode
ser? – a voz quase sussurrada inebriava Felipo.
-
Tudo bem – respondeu convencido, vencido pelo falar doce do rapaz. – Mas, se
você sentir alguma coisa, esteja ciente: você vai para o hospital.
-
Combinado – o rapaz sorriu e estendeu-lhe a mão. – Miguel...
-
Prazer, Felipo.
A
carona foi apenas o pretexto para que se aproximassem. Isso, mais uma vez, foi
peripécia do destino. Despois do atropelamento, passaram a se encontrar com
maior frequência pelos corredores da faculdade e nos restaurantes da cidade. Em
seus conversas, percebiam que eram mais parecidos do que poderiam ter
imaginado. Ouviam os meus cantores, liam os mesmos livros, assistiam aos mesmos
filmes e quase faziam as mesmas coisas. Miguel passou a integrar o grupo de
amigos de Felipo, e Felipo tratou de conhecer as pessoas com as quais Miguel se
relacionava. Felipo passava a compreender que, mais do que terminar o semestre
da faculdade, ele estava precisando apaixonar-se, e, sabia, aquilo acontecia
naquele momento. Ouvir a voz suave de Miguel, avistar seus olhos azuis e
cabelos extremamente negros em desalinhos fazia-o perder o prumo.
A
vontade de se aproximar ainda mais dele figurava-se tamanha que, de quando em
vez, não mensurava as consequências que podiam trazer suas ações. Apenas as
fazia. Na faculdade, quando o via chegar, corria ao seu encontro e abraçava-o apertado,
beijando-lhe a bochecha, como faz uma criança. Miguel gargalhava, retribuindo o
sorriso e o abraço. Por vezes, caminham, distraidamente, de mãos dadas pelo
campus, conversando besteiras e rindo com outros amigos. Porém isso não
bastava.
Num
final de uma tarde chuvoso, enquanto saíam juntos da faculdade, Felipo escorreu
em um dos degraus molhados da escada e foi violentamente ao chão. Machucando o
braço e cortando o lábio superior, que sangrava furtivamente. Assustado, Miguel
amparou-o, pegando-o no colo, despreocupado com o temporal violento que caía
sobre os dois. A sua preocupação era apena Felipo.
-
Você se machucou – disse Miguel, com Felipo no colo, olhando o corte no seu
lábio. – Vem. Eu vou cuidar disso...
-
Espera – Felipo falou, ainda no colo de Miguel, com o rosto lavado pela chuva.
A água se misturando ao sangue. – Me deixa fazer isso...
Então,
passou a mão pela nuca de Miguel e trouxe o rosto do rapaz de encontro ao seu.
As respirações pararam quando seus narizes se tocaram e seus olhares ficaram
tão próximos. Miguel podia sentir os lábios ensanguentados de Felipe pertos dos
seus. Não tinha certeza de que queria fazer aquilo. Apenas o fez. Sorveu os
lábios de Felipe, segurando-o no colo, num beijo profundo e demorado. A chuva
os lavava, e o amor lava suas almas.
Depois
daquele temporal, os dias de sol que se seguiram serviram para iluminar ainda
mais o caminho dos dois. Já não faziam mais nada um longe do outro. Todos os
viam sempre juntos. E, se juntos não estivessem, estariam tristes, pensando no
que o outro estava a fazer. Então, restava o celular para encurtar as
distâncias. Passam horas a fio falando quaisquer coisas, num diálogo fático,
onde havia mais o silêncio das palavras e o falar dos corações palpitando.
Porém
a felicidade alheia tende a incomodar quem é triste e rancoroso, que vive
sedento por arruinar o contentamento dos outros. Assim aconteceu. Um amigo dos
pais de Miguel, vendo o rapaz beijando-se com outro, num parque público da
cidade, tratou de ligar para a família e contar a cena “horripilante” que havia
presenciado. A notícia se espalhou como faísca em pólvora, correndo os quatros
cantos de uma cidade pequena, onde qualquer coisa é motivo para movimentação de
línguas afiadas.
-
Então é isso! – bradava o pai de Miguel. – Você é veado! – o rapaz não dizia
nada. Apenas ouvia os gritos do pai e olhar de reprovação da mãe. – Eu não te
criei para viver essa vida de gay!
-
Eu só não escolhi, pai, pode ter certeza – Miguel tentava se explicar.
-
Não me chama de pai! – esbravejou. – Eu não tenho filho veado! A cidade inteira
está rindo de mim e da sua mãe, por sua causa....eu tenho vergonha de você,
Miguel.
Seria
mais fácil se tivessem fugido enquanto tinham tempo; fugido antes que toda a
cidade descobrisse o relacionamento dos dois e passasse a os apontar nas ruas,
sussurrando maldizeres que os deixavam retraídos. A família de Felipo se
manteve presente, dando apoio aos dois, mas só isso não seria suficiente.
Miguel, desde a discussão com os pais, perdera o sorriso brilhante que trazia
nos lábios e no olhar. Quase não mais saía às ruas, não ia à faculdade.
Desejava somente permanecer no colo de Felipo e esquecer o mundo. O mundo tão
estranho que não o aceitava da maneira que ele era, que preferia vê-lo vivendo
uma eterna mentira do que sendo feliz. Um mundo onde o normal se fez
inaceitável. Esse mundo Miguel não podia compreender.
-
Eu te amo – repetia Felipo sempre que estavam juntos. – Eu te amo. Isso é tudo
o que importa.
Contudo,
certo dia, quanto chegou da faculdade, encontrou o apartamento vazio, e não
ouvia o som do violão que Miguel costumava tocar para ele quando sabia que
estava perto da hora de chegar da aula. Procurou-o em todos os cômodos, não o
encontrou. Então, resolveu ligar no seu celular. Para a sua surpresa, o
aparelho tocava em algum lugar dentro do apartamento. Receoso, Felipo seguiu,
buscando pelo celular que tocava. Entrou novamente no quarto e, só então,
percebeu que havia um bilhete sobre a cama. Ao lado do bilhete, estava o
celular.
Leu
as letras bem desenhadas do amado e as lágrimas vieram aos seus olhos. As
palavras não diziam muita coisa, mas Felipo sabia o que queriam significar.
Desesperado, olhou para o outro lado do quarto e a janela estava aberta. A
brisa soprando nas cortinas. Correu até ela e debruçou-se sobre o parapeito. A
certeza agora é inteira, e, por tal razão, sentiu-se sem vida, sem ar, o
desespero dominando, as lágrimas molhando o bilhete nas mãos. Miguel havia
encontrado a saída mais fácil da prisão na qual o mundo o havia colocado.
“Estarei preparando a nossa casa
para quando você chegar. Eu te amo.
- Miguel”
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Tiago Santos
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