Se não fosse pelo
extremo calor que sentia naquela manhã, o dia seria como qualquer outro. Ainda de
olhos fechados, sentindo a brisa morna invadir o quarto, tateou, às cegas, a
cama, buscando o corpo macio da mulher. No entanto, o que encontrou foi um
peitoral rígido e nu. Estranhando a situação, e um tanto por ímpeto, desceu
mais a mão, encontrando entre as pernas da pessoa deitada ao seu lado algo que
não o agradou. Assustado, saltou de um pulo da cama, os olhos arregalados, a
respiração entrecortada e a cabeça em turbilhão.
- Bom dia, amor...! –
respondeu um esbelto loiro completamente nu, que acaba de despertar. – Café...?
- Quem é você?! O que
fez com a minha mulher?! O que faz na minha casa?!
- Mulher...? – o loiro,
sem entender, sentou-se na cama. – Você está bem, amorzinho...?
- Fica longe de mim! –
dizia o homem, desesperado e completamente perdido, afastando-se da cama, apressadamente.
– E sai da minha casa! – gritou por cima do ombro, depois de deixar o quarto.
- Mas, meu amor... – a voz
do loiro desapareceu assim que o homem saiu de casa, ainda vestido em pijama e
com a mente perturbada.
Na rua, tudo também
parecia igual, tirando os casais formados por todos os lados. Homens
beijavam-se abertamente, sob a sombra das árvores do parque e casais de
mulheres passeavam, de mãos dadas, com os seus bebês, apático à balburdia na
qual se encontrava o mundo.
Atordoado, o homem
limpou os olhos, sem acreditar no que via. Fora educado, a vida inteira, numa
família católica, de costumes cristãos, conservadores...
- Hipócritas! – gritou uma
menininha descabelada para os amigos, correndo pelas margens da lagoa, no parque.
O homem perguntava-se o
que poderia ter acontecido. Desde quando o casamento gay e adoção de filhos por
eles haviam sido legalizados? Onde estaria a mulher com quem casara? E todos os
seus amigos héteros que moravam próximo à sua casa. Se fosse em outros tempos,
iria se juntar com mais dois ou três amigos para colocar ordem no lugar, ainda
que precisasse usar da força para isso. Mas não tinha tempo de pensar em coisas
como essa, naquele momento. Queria apenas ligar para a polícia e denunciar o
desaparecimento da esposa e o caos do sue bairro. Contudo, antes que pudesse
pegar o telefone celular no bolso e exigir uma postura enérgica das autoridades,
um lindo rapaz chamou-o, do parque.
- Hey, chama o Joel e
vem pra cá – gritava sorridente, referindo-se ao loiro deitado em sua cama. –
Vem! Tem espaço para todo mundo. E a comida é tão gostosa...
Tiago Santos
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