sábado, 19 de maio de 2012

(crônica do dia) O estranho.


Se não fosse pelo extremo calor que sentia naquela manhã, o dia seria como qualquer outro. Ainda de olhos fechados, sentindo a brisa morna invadir o quarto, tateou, às cegas, a cama, buscando o corpo macio da mulher. No entanto, o que encontrou foi um peitoral rígido e nu. Estranhando a situação, e um tanto por ímpeto, desceu mais a mão, encontrando entre as pernas da pessoa deitada ao seu lado algo que não o agradou. Assustado, saltou de um pulo da cama, os olhos arregalados, a respiração entrecortada e a cabeça em turbilhão.
- Bom dia, amor...! – respondeu um esbelto loiro completamente nu, que acaba de despertar. – Café...?
- Quem é você?! O que fez com a minha mulher?! O que faz na minha casa?!
- Mulher...? – o loiro, sem entender, sentou-se na cama. – Você está bem, amorzinho...?
- Fica longe de mim! – dizia o homem, desesperado e completamente perdido, afastando-se da cama, apressadamente. – E sai da minha casa! – gritou por cima do ombro, depois de deixar o quarto.
- Mas, meu amor... – a voz do loiro desapareceu assim que o homem saiu de casa, ainda vestido em pijama e com a mente perturbada.
Na rua, tudo também parecia igual, tirando os casais formados por todos os lados. Homens beijavam-se abertamente, sob a sombra das árvores do parque e casais de mulheres passeavam, de mãos dadas, com os seus bebês, apático à balburdia na qual se encontrava o mundo.
Atordoado, o homem limpou os olhos, sem acreditar no que via. Fora educado, a vida inteira, numa família católica, de costumes cristãos, conservadores...
- Hipócritas! – gritou uma menininha descabelada para os amigos, correndo pelas margens da lagoa, no parque.
O homem perguntava-se o que poderia ter acontecido. Desde quando o casamento gay e adoção de filhos por eles haviam sido legalizados? Onde estaria a mulher com quem casara? E todos os seus amigos héteros que moravam próximo à sua casa. Se fosse em outros tempos, iria se juntar com mais dois ou três amigos para colocar ordem no lugar, ainda que precisasse usar da força para isso. Mas não tinha tempo de pensar em coisas como essa, naquele momento. Queria apenas ligar para a polícia e denunciar o desaparecimento da esposa e o caos do sue bairro. Contudo, antes que pudesse pegar o telefone celular no bolso e exigir uma postura enérgica das autoridades, um lindo rapaz chamou-o, do parque.
- Hey, chama o Joel e vem pra cá – gritava sorridente, referindo-se ao loiro deitado em sua cama. – Vem! Tem espaço para todo mundo. E a comida é tão gostosa...

Tiago Santos

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