segunda-feira, 5 de março de 2012

(comentando) Sob plenos poderes.


Durante o meu período de férias das habituais atividades corriqueiras, refugie-me em meu saudoso interior para desligar-me do mundo e conectar-me à monotonia aprazível da chapada. Para tanto, deixei de escanteio os pasquins, a TV aberta, as notícias cotidianas. No entanto, como os momentos sempre findam, tive de voltar à vida de sempre, tendo os dias apinhados de novidades tenebrosas, deparando-me com coisas que, no interior, quase não se ver. Uma delas delas é a maneira como a vida é tratada feito banalidade por uma parcela doentia das pessoas.
Assistindo a um telejornal, vi um homem invadir um bar, sacar uma arma e disparar seis tiros contra um rapaz que bebia com os amigos, matando-o. A cena deixou-me assustado, pois poderia ser qualquer amigo meu, poderia ser eu. A matéria seguinte apresentou mais violência, protagonizada, desta vez, por um policial militar que, como quem brinca, atirou contra os seguranças de uma boate, deixando-os gravemente feridos e fugindo em seguida. Por fim, então, resolvi ouvir música, pois já estava ficando enojado ao constatar – mais uma vez – o quão cruel e frígido o homem vem se tornando.
Vendo notícias como essas todos os dias, perece-me que a vida perdeu todo o seu valor ante as necessidades e asseios pessoais, porque é ceifada com a mesma facilidade que se respira. Tornou-se banal e comum matar por motivo torpe, como se o poder de vida e morte estivesse em nossas mãos. Mata-se quando quer, como quer, por qualquer razão. Confesso não acreditar em muita coisa, contudo, possuo pela convicção de que não tenho o direito de influir no curso de vida de alguém, seja lá qual for o meu desígnio.
Por esse motivo, também, sou terminantemente averso à pena de morte, visto que ela condena ao fim algo sobre o qual não possui poderes: a vida. Assusta-me ver que a vida não parece possuir valor algum para quem a perder, aos olhos de quem a tira. Imagine-se caminhando na direção de uma cadeira elétrica e pensando em qual autoridade possuem para lhe matar, não importando o crime que se tenha cometido. É desesperador. Você irá morrer! A justição não se faz apenas através da fatalidade, pois existe a condenação perpétua que pune, porém preserva a vida. Sem falar que a nossa justiça – e muitas outras pelo mundo – paralítica não possui capacidade para adotar a pena de morte, quando já condenamos, arbitrariamente, tanto inocentes a anos de clausura, num sistema carcerário deficiente que não rabilita sob aspecto algum.
Não desejo que ninguém concorde comigo nem que diga ‘amém’, ao final deste artigo. Anseio apenas que fique claro que temos encarado a vida de maneira brutal, desvalorizando-a. Acostumamo-nos com assassinatos recorrentes, não mais nos indgnamos nem nos preocupamos. Talvez só saibamos o valor da vida quando um dos nossos for abatido, tal qual se faz a animais. Até lá, vamos nos transformando cada vez mais em um pedaço frio de carne.

Tiago Santos


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