segunda-feira, 26 de novembro de 2012

(crônica) Calado...



Quando você está assim, distraído, e pensa em mil coisas e não pensa em nada, e me vira o rosto e não me beija, a única vontade que tenho é de te abraçar. Proteger você dos seus pensamentos, do que viu e ouviu enquanto esteve longe de mim, enquanto esteve andando por aí, enquanto – aos meus olhos, ao meu medo – seria o meu fim.
Quando você está assim, tão perdido, é que me sinto forte. Como corda de cais, que prende a embarcação para que o mar não a engula, para que ela, então, não se perca, não suma, nas doces e perigosas brumas de um simples pensar. Teus olhos divisando a linha para lá dos montes, a boca entreaberta, como quem sorve a brisa, o corpo recostado na parede da sala, próximo à janela, encantado, mergulhado em devaneios, mergulhado na escuridão luminosa clareada pela luz fria do sol na vidraça. E eu aqui, olhando você partir, tão perto, mas tão distante de mim, deitado em tuas pernas, ouvindo o teu respirar.
Duas estátuas de mármore feitas de uma única peça, fundidas por um único peito, lesadas pelo mesmo sentimento, erguidas por mãos únicas, donas do mesmo choro e do mesmo riso, negras e pálidas, tão alvas quanto o piso, onde nossas lágrimas – pequenas bolinhas de prata – se acumulam. Uma pintura abstrata, como abstrato é o que lhes dava vida, o sopro primordial, o princípio ativo que desperta o que é mortal e, por um instante, faz eterno, na retratação de um quadro, na beleza de duas estátuas de mármore, duras como é a pedra, suaves, silenciosas, como silencioso é o cárcere.
Quando você está assim, calado, é quando eu grito, dilacero, debato. A tua ausência de fala é, da forca, o meu laço, o demônio que, sorrateiro, me afaga e deixa minha cabeça aberta, no qual me desfaço. Leio o teu olhar, e ele também não me diz nada, está límpido feito água, vazio como as tuas mãos. Está para lá dos morros, silencioso, procurando algo que não encontrou aqui, talvez, desejando o momento certo de ir e eu nada vou poder fazer que não seja gritar. Não gritarei para ficar, gritarei só por mim, para esvaziar e, quem sabe depois, dormir...dormir enfim, um sono tranquilo, onde não haja mais nada além de...
Quando você está assim, distraído, é que eu entendo o medo que eu tenho de te perder...

Tiago Santos

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