terça-feira, 15 de janeiro de 2013

(crônica do dia) A Guerra Acabou




Há um caminho, todos os portais ainda estão abertos, e todos os passos correm para a mesma direção. Não há por que temer ou fingir não existir, está sob o olhar, sob o toque das lembranças, não há como fugir, não há como evitar. Foi uma longa viagem, que passou com a rapidez de um comenta que corta o céu, na lentidão de um beijo demorado, em silêncio, atormentado pelas estradas, pelas escadas, pelos desníveis, recantos sensíveis, receios de ir mais afundo.
Todas as dores foram aplacadas, os ferimentos, curados, ao tempo em que outros se fizeram, abriram feito crateras, deixaram expostos a fragilidade, a preocupação, a verdade, que há muito esteve escondida sob palavras doces, são valor, sem peso ou terror...apenas palavras, que, feito poeira, se esvaíram num primeiro soprar de vento...num segundo soprar de vento...num terceiro que não virá.
Uma viagem por caminhos discretos, passagens secretas, por conversas sussurradas ao pé do ouvido, momentos segredados em noite de insônia. O cavaleiro aprendeu a domar pesadelos de dragões, respirações ofegantes e a fazer adormecer de novo quem os pesadelos perturbaram. Aprendeu a ser paciente, ouvir, por noites a fio, o som único de uma respiração, para ser capaz de reconhece-la – única – em qualquer lugar do multiuniverso desparalelo.
Cansado, ferido, exposto, cheio de marcas pelo corpo e de filetes de memória na bagagem, abandona a batalha, desertor envergonhado, com medo de que – por fim – uma outra lança lhe dilacere o peito, faça-o mil pedaços, retalho do que um dia foi. Já não há mais espada nem propósito para lugar. Não houve perda de tempo...não vou perda. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Há um caminho, todos os portais ainda estão abertos, e todos os passos correm para a mesma direção. Mas a guerra acabou...é hora de voltar para casa...

Tiago Santos

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