NOTA
DE QUEM ESCREVE.
Encontrei
com essa família numa cidadezinha não muito longe daqui, e achei-a tão
interessante, de discussões não simples e coerentes que não podia deixá-la
passar despercebida. Quero compartilhar as conversas dos integrantes dessa
família e dos seus amigos com vocês, leitores. Relevem os pensamentos tortos,
porém contundentes, d’Os Silvas. A partir de hoje, novas histórias deles vão
preencher algumas das páginas do blog. Fiquem à vontade para conhecê-los. Aí em
seguida, a primeira discussão deles que eu presenciei.
***
Escondidos
no meio do mato, num sitiozinho, ali no interior do interior do agreste, vivia a
família dos Silvas. Pai, mãe e os três filhos, duas moças e um rapaz. Fora o
sol que era certo aparecer todos os dias, salvas raridades, notícia das
redondezas nenhuma não se tinha. A nível nacional, as novidades chegavam pela
tela da TV colorida que foi comprada à mesma época em que chegou a luz para todos,
e chegou também a propaganda eleitoral obrigatória, o marketing sensacionalista
dos empreendimentos do governo, os desastres que aconteciam pelo mundo e os
desastres que aconteciam no próprio país, coisas das quais eles nunca tinham
ouvido falar e, por ter a alma lapidada pelo viver simples, sentiam vergonha ao
ver os montes de dinheiro escorrendo pelo ralo quando aquele casal bonito dizia
“boa noite”, todas as noites. A família já sabia, quando eles aparecessem, depois da
novela das sete, coisa boa não havia de ser contada.
Porém,
naquela tarde, depois que o pai, seu Messias, chegara da lida nas terrinhas que
os Silvas tinham nos arredores da casa grande, no meio da secura e do nada, e
dona Celeste já passara o café para mais logo, os três filho chegaram do
colégio, eufóricos. As meninas, com apenas um ano de diferença, uma com 15 e
outra com 16, cursavam o segundo ano do ensino médio, já o menino fazia
cursinho na cidade vizinha, uns oito quilômetros ali do sitiozinho da família.
-
Pai, o senhor ficou sabendo que vão construir uma usina nuclear lá em Santana? –
a filha mais nova, Edite, a mais mirrada, era a mais empolgada.
-
Usina de quê?! – Seu Messias estranhou as palavras, enrolando seu cigarro de
corda. – Nucleotídeo?!
-
Não, pai...Nuclear.
-
Sei que diabos é isso, não...mas, se fosse nucleotídeo, eu sabia – se riu, tragando profundamente.
-
Dizem que vai gerar energia! – o filho, Nestor, completou.
-
‘Nergia pra quê?! – gritou de lá dona Celeste. – Todos os povo aqui da região
já tem ‘nergia...e tem também aquele negócio que o deputado falou... – parou para
pensar, mas desistiu, não iria lembrar. – Como é o nome mesmo, bem?
-
Disinvôvimento – respondeu Messias. – Eu só não sei pra onde...
-
Meu irmão, o tio de vocês, Zezin’, – Celeste continuou – trabalhou uma vez
nesse negócio aí de usina nucrear...mas saiu do sirviço porque ficou retado.
-
Retado?! – Marília, a filha mais velha e mais encorpada, quis saber.
-
É – Celeste trouxe, numa caneca de porcelana, dois dedos do café fumegante para
o marido. – Ele disse que ele e os cumpadre se matava lá nas mina, racando
pedra p'rum tal de Urânio enriquecer lá nos istrangero. Aí ele saiu. Como é que pode?!
O coitado suava aqui, debaixo da terra, pra esse tal de Urânio enriquecer?!
Certo ele de pedir as conta.
-
Não, mãe – Edite insistia. – Mas a professora falou que a região vai crescer
com essa Usina. Vai dar trabalho.
- Que vai dar trabalho, vai! Muito. Vocês acredita em qualquer coisa que esse povo fala? – Seu Messias dizia com a
cara enterrada dentro da caneca. – Quem é que liga pra esse povo aqui do
sertão?! Ouxe, Eles tão é querendo alguma coisa da gente aqui. Pode ter
certeza. Ou vão fazer nosso povo de escravo, ou roubar alguma coisa da gente...ou os dois.
-
É o progresso, pai – falou Nestor. – Eles vão trazer todo o material e a
tecnologia da Alemanha. Toneladas de material que vêm pelo mar, de navio. Aí
vão montar lá em Santana. O governador já assinou o contrato e tudo.
-
Esse velho também assina qualquer coisa que colocam na mão dele, não é?! – dardejou seu Messias um tanto irritado. – Ele disse que ia trazer a água do Chico
pra gente e até agora nada. Mas o seu Inácio, o da barba e voz grossas, que tem aquele fazendão lá pras
bandas de Gloriosa e planta aqueles pé de algodão, já tem água. O rio ta passando
bem no meio das terra dele! E nois aqui, na miséria dos diabo, cavando buraco
pra não morrer de sede. Agora eles vêm pra cá com essa história de tonelada de
material. Quero é ver.
-
É verdade. São toneladas de ferragens, plataformas, para construir a usina –
reiterou Marília. – Mas o único problema é que eles não sabem onde colocar o
lixo.
-
Oxe! – dona Celeste soltou uma risada sonora. – Eles traz os ferro de outro
país e não sabem onde colocar o lixo?!
-
Esse povo é tudo doido, Celeste – disse seu Messias.
-
Não pode jogar em qualquer lugar, não, mãe. É veneno – esclareceu Nestor.
-
Eu disse...! É a gente que vai pagar a conta no final de tudo! Esse negócio vai
matar nossos bicho tudo...vai matar a gente – disse seu Messias.
-
O veneno é um pozinho que brilha... – Edite estava fascinada.
-
Brilha que nem as estrelas?! – indagou dona Celeste. – Se for, vocês vai buscar
um pouquinho pra nois enfeitar aqui o terrero em dia de forró.
-
Eu já to é cheio disso! – seu Messias bateu o pé no chão. – Enquanto eles fica aí, procurando sarna pra se coçar, gastando dinheiro com essa'susina, enquanto
ta sobrando rio por aí pra dar luz, a gente continua aqui, passando fome
e morreno de sede. O gado, coitado, eu nem sei se vai agüentar esse mês de seca, ta mais magro que palito. A gente paga imposto até numa tala de frósco e é com o nosso
dinheiro mesmo que eles vão envenenar e matar nois. Se fosse bom, meus filho,
não vinha aqui pra esse fim de mundo. Se a gente vai aceitar, aí já é outra
história.
Tiago Santos

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