domingo, 16 de outubro de 2011

(crônica do dia) A espécie.


Tinham encontrado aquele pequeno planeta, perdido numa galáxia, havia um bom tempo. Porém, tamanha era a sua insignificância de dimensões, que o deixaram de lado até que, durante pesquisas realizadas à distância, sem reais intervenções presenciais, descobriam que nele existiam formas de vida inteligente.  Não tão inteligente quanto se imaginou, mas, ainda assim, vida. Rumaram para o pequeno planeta e ficaram ainda mais impressionados com a sua diversidade da vida animal e vegetal, a abundância de água, as suas temperaturas aprazíveis, exatamente como era o planeta de onde vinha. Certamente aquelas condições favoráveis proporcionavam a vida ali. No entanto estudariam a geologia do planeta, que também se iluminava com um sol, depois, primeiro analisariam a espécie que habitava as reentrâncias das matas. Enviaram equipes de expedições e, em uma semana, tinham encontrado os moradores e os observava à distância, ao passo que relatavam tudo em diversas laudas a serem mandadas para o governo do seu planeta muito longe dali, onde os moradores aguardavam ansiosos por notícias da nova descoberta.
- Interessante essa espécie, não é? – comentou um observador encarregado de documentar todas as ações, costumes e hábitos da espécie recém-encontrada. Ele e um companheiro olhavam, escondidos, de longe uma colônia de nativos.
- Não acho que seja tão interessante assim – o companheiro objetou, fazendo cara de nojo. – Eles me dão medo.
- Justamente essa brutalidade, esses hábitos selvagens, essa bestialidade é que transforma essa espécie em algo interessante de se analisar – dizia fascinado ao mesmo em tempo que fazia anotações. – No início da semana, aquele macho, o mais forte, o que parece ser chefe da colônia, manteve relações com a fêmea mais jovem, aquela que pensamos que fosse a filha do mesmo macho. Mas, diante do acontecimento, acredito que ela não seja.
- Não?! – o companheiro retorquiu. – Por que, não? É provável que ela seja mesmo filha dele. Não me admiraria se fosse. Eles são tão brutos. Ontem duas fêmeas quase se mataram por causa de um outro macho que não estava dando a mínima para elas. Chegaram a usar facas e até uma arma de fogo bem rudimentar.
- Por falar em brigas – o observador mais entusiasmado remexeu em seus papéis de anotações, buscando alguma coisa. – Ouve isso... – pigarreou e começou a ler. – “Um macho da espécie em questão, de estatura baixa e corpo ainda não completamente desenvolvido, atacou uma fêmea aparentemente de idade avançada, devido ao seu estágio físico debilitado, e tomou-lhe um recipiente que parecia ser muito valioso para a fêmea, pois ela gritou em demasia. Em seguida, depois que o jovem macho desapareceu com os pertences da vítima, a mesma comunicou o fato aos machos que cuidam a segurança da colônia, porém nada eles se disponibilizaram a fazer para ajudá-la.”
- Normal. Vi esses mesmos machos-guardas lançarem aos olhos de um macho-criança um líquido que causar ardor. Um absurdo sem tamanho – o outro observador não se mostrou surpreso. – Anteontem presenciou outro fato: um grupo de machos escondidos do outro lado da selva, eles estavam trocando o que parecia ser uma espécie de dinheiro. Eu deduzi que fosse como um pagamento indevido para que obtivessem vantagens na colônia, lucrar sobre o que os mais fracos produzem.
- Corrupção?! – o observador entusiasmado ficou ainda mais interessado nos fatos. – Pensei que só existisse isso no nosso planeta. E quanto às mortes...já percebeu que eles matam como bárbaros por questão tão vis, tão insignificantes, que poderiam ser resolvidas numa boa conversa?
- E o pior. Aqueles que estão responsáveis pela colônia, que parecem ter sido escolhidos pelas porções mais fracas, pouco fazem para manter o grupo em união e harmonia.
- Por isso digo que é tão interessante observar essa espécie. São bárbaros, pré-históricos. Somos muito superiores a eles.
Interrompendo a conversa dos dois observadores, o superior deles, responsável pela supervisão dos relatórios que seriam enviados os planeta colonizador, aproximou-se silencioso para não chamar a atenção da espécie observada.
- Preciso que me entreguem os relatórios da semana... – disse o supervisor. – Um ônibus espacial está saindo daqui a pouco, ele irá levar a documentação.
- Está tudo pronto, senhor. Só precisamos do nome de identificação dessa espécie tão diferente para colocar aqui no relatório.

- Ah, nossas pesquisas indicaram que ela possui muitos nomes – respondeu o supervisor. – Aqui na Terra chamam de Gente, pessoas...mas pode colocar aí: Espécie Humana. 

Tiago Santos.


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