quarta-feira, 14 de agosto de 2013

(comentando) O nexo da viagem sem volta para Marte.


Fico a imaginar o que leva uma pessoa a se inscrever no programa de colonização de Marte. Ou o indivíduo está muito infeliz e insatisfeito com a sua vida terrena – o que não é difícil de acontecer e se viabilizar – ou ele vislumbra, nessa viagem, só de ida, interplanetária, dar um passo maior que as pernas, num lampejo de ambição, de autoafirmação, algo do tipo. Ir a Marte apenas para dizer “fui a Marte” e não poder voltar para contar a experiência, a mim me parece um tanto insano. O que diabos essa pessoa faria/fará em Marte? Porque, até onde eu sei, não há nada que se possa fazer lá e que possua o mínimo de conforto possível. Somos bichos brotados em Terra, para viver na Terra.
Levamos bilhões de anos para evoluir e nos adaptar às condições do nosso planeta e, agora, 100 mil dos nossos se disponibilizam a ir colonizar marte! Será que todos esses inscritos passarão por um intensivão de ‘Como sobreviver em solo extraterrestre’? O que será que eles levarão para se entreter? Não haverá internet, telefone, TV, rádio...e, se houver, os serviços custarão os olhos da cara. Porém como é que se vai saber o valor de tais serviços se não há moeda oficial em Marte? Usar como unidade de valor o dólar, o euro, o peso colombiano ou qualquer outra moeda não valerá de nada, já que não vai ser possível voltar a Terra e usufruir dos deleites que possuir dólar-euros-libras proporciona!
Passar a vida inteira lendo, embora soe uma atividade culta, também se tornaria monótona. Ocorre-me também que deve ser divino deslumbrar-se com uma outra perspectiva do universo. Acordar, olhar para o lado e deparar-se com a Terra gravitando...mas, ao mesmo tempo, essa pessoa não seria acometida por uma profunda depressão, talvez até um desespero, por dar-se conta de que não está lá? De não saber o que se passa, por ter deixado para traz amigos, conhecidos, vícios, manias, regalias.
Não se trata de colonizar Marte, trata-se de se sacrificar por uma idéia completamente sem nexo (pelo menos, para mim). Importância para o âmbito científico e acadêmico, decerto há, claro. Mas e para essas 100 mil pessoas? Todas elas decidiram tornarem-se mártires (com o perdão do trocadilho)? Sem falar que poderíamos estar a um passo de devastar, assim como fizemos com a Terra, um novo planeta ainda intocado, livre da destruição que vem no encalço das idéias humanas.
Por outro lado, talvez, o errado seja mesmo eu. Vai que a colonização acontece com uma dezena de caravelas, cruzando o cosmo com bandeiras dos Estados Unidos, aportando nos mares celestes de Marte, dividindo o novo planeta em capitanias hereditárias que vão acabar nas mãos da família Sarney...bom...nunca se sabe. 

Tiago Santos

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