(A Matadeira - Cordel do Fogo Encantado)
O
cicio aterrorizante do fino assobio que escorria pelo céu, cinza de poeira e
fuligem, fez o jovem garotinho tremer, no colo do irmão. Apavorado, o rapazinho
chafurdou o rosto nos ombros da única pessoa que ainda lhe restava em vida,
todos os outros tinham morrido. Pai, mãe, primos, tias, avós...tinham-se ido,
levados pelo cicio doce – gostoso de se ouvir, se não fosse pelo faro de morte
que vinha com ele –, ou levados pelo barulho de balas consecutivas, capazes de
traçarem uma linha reta numa pessoa e dividi-la em dois. Seu irmão, a sua
última fortaleza, para lhe consolar, dizia-lhe que todos haviam se juntado,
finalmente, ao Senhor de Azul-Vermelho, e por lá ficariam até que as suas almas
viessem a se encontrar uma vez mais.
O
garotinho, em suas fantasias reais de garotinhos, imaginava tal Senhor como
alguém que fora bom, mas que, agora, por levar sua família, tornara-se ruim,
perdera o rumo, trilhava na direção da destruição. E não estava errado. Era
exatamente isso o que aquele Senhor representava. A destruição, o ceifar da
vida inocente, o findar de sonhos. E o garotinho entristeceu e tremeu quando o
cicio doce morreu, no momento em que a bomba atingiu o chão, fazendo tudo
tremer de forma horripilante. Porém não chorou. O que mais havia de chorar?!
Petróleo? Pois todas as suas lágrimas já tinham secado, e não existia mais
soro, estava tão seco quando o solo árido, a poeira do deserto no qual morava
que, antes do Senhor derramar sua glória sobre ele, era feliz, dentro das suas
miseráveis possibilidades.
Usando
trapos, os dois irmãos abraçavam-se, com medo de que um dos dois se fosse e o
que ficasse morresse sozinho, porque isso aconteceria em pouco tempo. Estavam
escondidos sob a carcaça de um carro carbonizado, no início da batalha
unilateral, onde apenas um sairia vencendo. Contudo, o que eles não sabiam era
que todos iriam morrer. Tanto eles, os usuários de trapos, os moradores do
deserto, queimados pelo sol, quanto os Arcanjos do Senhor, que sempre apareciam
vestidos em macacões escuros, com máscaras de gás, capacetes, armas nas mãos,
pilotando carros-tanque. Embora não fosse ao mesmo instante, ou no mesmo lugar,
ou pelo mesmo motivo, todos iriam morrer, o que endossava a falta de lógica
daquela dizimação em massa. Iriam todos apodrecer, integrar a terra, escorrer
pelas pedras, virar o óleo que iria ungir, talvez, uma nova civilização que
surgiria bilhões de anos depois, se a idéia da existência de algum depois não
fosse, também, destruída pelas bombas dos homens.
E,
logo depois da explosão ensurdecedora, tudo se fez silêncio, no esconderijo dos
dois irmãos. Não havia mais gritos por misericórdia, nem a balbucia das bombas
cortando o céu, nem muito menos o choro das mães que perdiam seus filhos para o
Senhor Azul-Vermelho. Não havia nem mesmo a música que as armas dos Arcanjos
traziam. Elas cantavam sempre, a todo momento, a mesma melodia, entoando o
mesmo propósito. Também elas tinham se calado. Por instante, o jovem garotinho
sorriu e, movido pelo vislumbre de um fim, saiu de debaixo da carcaça do carro
para o deserto que tinha se tornado a cidade, onde antes morava.
Saiu,
gargalhando, porém estranhou quando não pôde ouvir o próprio riso, nem os
próprios passos, nem a voz do irmão que vinha correndo em sua direção,
desesperado, gritando o seu nome, mas ele não ouvia. E desesperou-se também. Ao
seu redor, tudo continuava em caos. Seu irmão chamava-o, pedia que voltasse,
mas o estardalhaço da bomba o deixou surdo. Não teve tempo para muita coisa. Quando
o irmão tocou-lhe o braço para puxá-lo de volta para debaixo da carcaça do
carro carbonizado, chorou a última lágrima que restava no seu coração de
menino, vendo o mundo se desfazer em chamas, lambido por labaredas, balas e
potência. A prepotência mundial. Junto com a lágrima, saiu-lhe pela boca um
grito poderoso, que cortou o som da guerra e atingiu o coração dos Arcanjos que
pararam de matar...que atingiu os países do mundo inteiro e todos choraram,
olhando para o deserto...que atingiu os deuses e esses se enfureceram...só não
atingiu o Senhor Azul-Vermelho que voltou a ordenar “fogo”...
E,
como todos em sua família, foram alvejados abraçados...já não existia mais os
irmãos...novamente, tudo era deserto.
Em memória dos mais de 100.000 civis mortos no
Iraque, desde o início da guerra, em março de 2003.
Tiago Santos
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