(She will be loved - Maroon 5)
No
pequeno bairro, margeando o subúrbio de Dallas, no Texas, não havia garota que
fosse mais bela do que ela. Talvez, por esse motivo, seus pais deram-lhe o nome
de Pretty, e a moça fazia jus a ele. Os longos cabelos castanhos, de cachos
volumosos, caíam-lhe sobre os ombros, emoldurando a face bronzeada e os olhos
de um tom azul-cobalto encantador. Não tinha mais do que dezoito anos, no
entanto, já havia ganhado seis concursos de beleza, quando menor. Porém ninguém
mais, no pequeno bairro, admirava tanto a sua beleza quanto Douglas, um jovem
rapaz que conhecia desde criança.
De
famílias amigas, foram educados pelas mesmas pessoas, nos jardins entre as duas
casas vizinhas. Todavia, embora a ligação entre eles direcionasse-os para laços
fraternais, Douglas não podia fingir que os sentimentos que nutria por Pretty
não eram os mesmo que um irmão sente por uma irmã. Sempre tão unidos, Douglas
buscava estar sempre ao lado de Pretty, para cuidar e protegê-la. Constantemente,
quando a moça enfrentava problemas com o pai alcoólatra, dentro de casa, corria
para chorar, nos braços do seu amigo. Costumavam passar horas incontáveis
conversando sobre suas vidas, seus sonhos e aspirações, os caminhos pelos quais
queiram percorrer e até onde pretendiam ir.
Em
seus devaneios de jovem, Douglas pretendia servir à aeronáutica, possuir uma
alta patente na corporação, ganhar os céus e crescer como pessoa, visando
sempre uma vida melhor para a família, que nunca fora pobre, mas também nunca
fora rica. Ao contrário dele, Pretty não aspirava a nenhum patamar tão acima
das suas possibilidades. Não conseguia enxergar perspectivas, na vida a qual
estava levando. Com o pai sempre bêbado, a mãe e a irmã tinham de fazer
bolinhos recheados para vender por Dallas, assim, podiam garantir o sustento da
família.
-
Você pode vir comigo – insista sempre Douglas. – Podemos morar em Nova York,
ter uma casa, levamos as nossas famílias.
-
Meu pai fica – era sempre a resposta dela, brincalhona. E Douglas encantava-se
com o seu singelo sorriso quebrado, tristonho.
-
Tudo bem – concordava o rapaz. – Podemos ser mais felizes do que somos aqui. Você
pode trabalhar como modelo.
-
Você vai servir à aeronáutica, não quero ficar em Nova York sozinha –
conversavam sob o sol plácido do final da tarde, enquanto Douglas acarinhava os
cabelos da moça.
-
Largo a aeronáutica por você – ele respondeu, como fazia todas as vezes. E Pretty
sorriu-lhe uma vez mais.
-
Não sou tanto para que desista dos seus sonhos por mim.
-
Você é tudo...
Mas
há algumas coisas que não são para ser. Pretty acreditava que um rapaz como
Douglas, sensível, inteligente, que se importava, consistia em muita coisa para
ela. Por esse motivo, não conseguia discernir o que, verdadeiramente, sentia
por ele. Com constância, mergulhava-se em incertezas, dúvidas sobre como seria
a sua vida se estivesse com Douglas. Porém as propostas não permanecem de pé
para sempre e outras pessoas acabam por compor as nossas vidas. Foi assim com
Pretty. A moça conheceu Simon, um rapaz tão educado, bonito, inteligente e
preocupado quanto Douglas. Prém havia uma grande diferença. Ele não era
Douglas, contudo, Pretty acreditava que estar com Simon seria melhor do que
estar com Douglas, pois, na maioria das vezes, quando dois velhos amigos se
tornam mais que amigos, logo em seguida, tendem a se tornar estranhos.
Simon
fazia Pretty feliz, isso não se podia negar. No final das suas conclusões,
Douglas pensou que ela sempre pertenceu a Simon. Portanto, não tinha mais nada
que o prendesse em Dallas. Alistou-se na aeronáutica, organizou as suas malas,
vida e pensamentos, e foi servir à nação, prometendo para si mesmo que não mais
voltaria a desejar estar ao lado de Pretty. Não desejava desestabilizar a vida
da moça com suas promessas de vida melhor, com suas declarações para um futuro
brilhante. Não, agora, que ela tinha encontrado um cara capaz de ajudá-la a
superar os problemas de família. Então, convencido de que tinha a perdido,
Douglas despediu-se da moça sem abraços, sem lágrimas e palavras. Um olhar a
distância falou mais do que eles poderiam expressar. Estava claro, no
azul-cobalto dos olhos da moça, que ela estava triste, mas fizera a escolha.
Não podia voltar atrás. Então, Douglas apenas foi embora.
Sendo
eles tão jovens, o tempo não se importou em perpassar por eles, fazendo com que
os anos se acumulassem sobre os seus ombros, e mostrando que nenhum plano
vingará se não for do querer dele, o tempo. A Pretty, ele tratou de mostrar que
nenhuma beleza resiste ao seu poder, os cabelos e a pele se tornam menos
vistosos, os olhos menos brilhantes, as forças se desvanecem. Mostrou, também,
que, por vezes, fazemos escolhas erradas e que ninguém, absolutamente, poderá
mudar o que foi feito. Ao Douglas, encarregou-se de evidenciar que, quando
perseguimos os nossos desejos mais profundos, alcançamos, com louvor, tudo o
que foi almejado. Porém mostrou também que, mesmo possuindo tudo o que foi
querido, quando desistimos de lutar por coisas pequenas, mas que são sinceras,
não poderemos viver sem lembrá-las. Pois há pessoas que nunca poderão ser
esquecidas.
Douglas
possuía uma bela mulher e duas crianças adoráveis, contudo, seus pensamentos
não deixaram de habitar o pequeno bairro, em Dallas. Pensava em como estaria
Pretty, o que fazia da vida, se ainda tinha vida. E não demorou muito para que
os seus caminhos voltassem a se cruzar, por causa de uma ligação qualquer, no
meio da madrugada.
-
Douglas – murmurava uma voz lamuriosa e conhecida, do outro lado da linha. – Eu
preciso de você...vem me encontrar – logo depois, o som do final da ligação.
Catatônico,
o rapaz, agora um homem feito, comandante da aeronáutica, reconheceu a voz e
não hesitou em preparar uma pequena mala, pegar a chave do carro, durante a
madrugada, e dirigir de volta para o lugar onde nunca pensou que voltaria outra
vez. Entretanto, as circunstâncias eram outras, o momento era outro, e a moça
mais linda que já conheceu na vida ligara pedindo a sua ajuda. Não poderia
negá-la. Como há tempos passados, ainda estava disposto a desistir dos seus
futuros sonhos por ela. Isso nunca mudaria.
Ele
dirigiu por milhas e milhas, observado a paisagem bucólica da estrada,
lembrando-se de anos idos, recordando os tempos de garoto, quando pouco sabia
da vida, mas era mais corajoso do que agora. Ao raiar do sol raiou, dias depois
de sair de casa, com uma centena de ligações da mulher no celular e o corpo
exausto, chegou ao seu destino. O subúrbio de Dallas permanecia da mesma forma
que o havia deixado, as casas, as ruas, somente as pessoas tinham mudado. Parou
o carro de frente para a casa onde Pretty morava com a família anos trás e
ficou lá, sentado no capô do carro, enquanto uma fina garoa caía intermitente.
-
O senhor procura por alguém...? – indagou um garotinho, aproximando-se do
carro. Douglas passou alguns instantes calado, pensando em como descrever a
mulher que conhecera.
-
Procuro por uma garota do sorriso quebrado, tristonho – Douglas disse, sem
certeza alguma das suas palavras. – Mas você não a conhece... – dando de
ombros, o garotinho se afastou e foi embora.
Neste
momento, na casa vizinha a que Douglas estava parado, avistou uma mulher de
olhar alquebrado e movimentos frágeis. Rapidamente, ele correu para ela. Sem dúvida,
era a Pretty, morava, agora, na casa que antes foi da família de Douglas.
Estava mais pálida, tinha pequenas cicatrizes no rosto, o cabelo menos vivo e
descuidado, mas, para ele, ainda continuavam extremamente linda, tão linda como
quando tinha dezoito anos. Ao vê-lo e reconhecê-lo, Pretty desceu o lance de
escadas da varanda e atirou-se para os seus braços, deixando que as lágrimas
fluíssem de seus olhos e ensopassem ainda mais o terno molhado do homem, o
homem que nunca devia ter deixado ir embora.
-
Ele fez isso com você...? – indagou Douglas, acariciando o rosto maltratado de
Pretty. – Onde ele está? Vou me acertar com ele!
-
Ele está no trabalho – ela disso, dando pouca importância ao que Douglas dizia.
Estava encantada com a aparência bem cuidada do homem. – Você está tão lindo...
-
Você também.
-
Não minta. Agora eu sou feia e mal amada – ela sorriu o seu sorriso quebrado. –
A vida nem sempre é um conto de fadas...eu perdi você.
-
Meu coração sempre esteve cheio, esperando por você. Dizer adeus não significa
nada. Se você me pedir, vou segurá-la toda vez que cair – dizia, enquanto
afagava seus cabelos, os rostos colados, os olhos mergulhados uns nos outros.
-
Eu pensei que você não viria – ela murmurou, sob as carícias dele.
-
Dirigi por milhas, desejando te ver outra vez...
-
Por que você não veio antes...? Eu precisei tanto...
-
Você me deixou ir...eu não podia voltar.Tenho filhos e uma mulher, agora.
-
Eu poderia ter sido a sua mulher – ela se lamentou, as lágrimas escorrendo por
seu rosto. – Eu estive tão triste, durante todo esse tempo. Você me parece
feliz.
-
Conheço você melhor do que ninguém, Pretty. Sei por que você é o que é. E isso
torna você uma das pessoas mais importantes da minha vida.
-
Mas há coisas que não são para ser – ela concluiu. – Eu precisava ver você mais
uma vez, saber como estava. O tempo passou para nós e já não somos mais tão
certos um para o outro.
-
Por favor, não se esforce tanto para me dizer adeus outra vez. Eu sempre
poderei cuidar de você...você será sempre amada.
Abraçaram-se,
como se daquilo dependessem as suas vidas. Quando jovens, tinham planos
distintos, caminhos divergentes para serem seguidos. Agora, o tempo deles já
havia passado, porque há coisas que não são para ser...nunca serão.
Tiago Santos
A-DO-REI
ResponderExcluir