quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

(conto) Milhas distantes


(She will be loved - Maroon 5)

No pequeno bairro, margeando o subúrbio de Dallas, no Texas, não havia garota que fosse mais bela do que ela. Talvez, por esse motivo, seus pais deram-lhe o nome de Pretty, e a moça fazia jus a ele. Os longos cabelos castanhos, de cachos volumosos, caíam-lhe sobre os ombros, emoldurando a face bronzeada e os olhos de um tom azul-cobalto encantador. Não tinha mais do que dezoito anos, no entanto, já havia ganhado seis concursos de beleza, quando menor. Porém ninguém mais, no pequeno bairro, admirava tanto a sua beleza quanto Douglas, um jovem rapaz que conhecia desde criança.
De famílias amigas, foram educados pelas mesmas pessoas, nos jardins entre as duas casas vizinhas. Todavia, embora a ligação entre eles direcionasse-os para laços fraternais, Douglas não podia fingir que os sentimentos que nutria por Pretty não eram os mesmo que um irmão sente por uma irmã. Sempre tão unidos, Douglas buscava estar sempre ao lado de Pretty, para cuidar e protegê-la. Constantemente, quando a moça enfrentava problemas com o pai alcoólatra, dentro de casa, corria para chorar, nos braços do seu amigo. Costumavam passar horas incontáveis conversando sobre suas vidas, seus sonhos e aspirações, os caminhos pelos quais queiram percorrer e até onde pretendiam ir.
Em seus devaneios de jovem, Douglas pretendia servir à aeronáutica, possuir uma alta patente na corporação, ganhar os céus e crescer como pessoa, visando sempre uma vida melhor para a família, que nunca fora pobre, mas também nunca fora rica. Ao contrário dele, Pretty não aspirava a nenhum patamar tão acima das suas possibilidades. Não conseguia enxergar perspectivas, na vida a qual estava levando. Com o pai sempre bêbado, a mãe e a irmã tinham de fazer bolinhos recheados para vender por Dallas, assim, podiam garantir o sustento da família.
- Você pode vir comigo – insista sempre Douglas. – Podemos morar em Nova York, ter uma casa, levamos as nossas famílias.
- Meu pai fica – era sempre a resposta dela, brincalhona. E Douglas encantava-se com o seu singelo sorriso quebrado, tristonho.
- Tudo bem – concordava o rapaz. – Podemos ser mais felizes do que somos aqui. Você pode trabalhar como modelo.
- Você vai servir à aeronáutica, não quero ficar em Nova York sozinha – conversavam sob o sol plácido do final da tarde, enquanto Douglas acarinhava os cabelos da moça.
- Largo a aeronáutica por você – ele respondeu, como fazia todas as vezes. E Pretty sorriu-lhe uma vez mais.
- Não sou tanto para que desista dos seus sonhos por mim.
- Você é tudo...
Mas há algumas coisas que não são para ser. Pretty acreditava que um rapaz como Douglas, sensível, inteligente, que se importava, consistia em muita coisa para ela. Por esse motivo, não conseguia discernir o que, verdadeiramente, sentia por ele. Com constância, mergulhava-se em incertezas, dúvidas sobre como seria a sua vida se estivesse com Douglas. Porém as propostas não permanecem de pé para sempre e outras pessoas acabam por compor as nossas vidas. Foi assim com Pretty. A moça conheceu Simon, um rapaz tão educado, bonito, inteligente e preocupado quanto Douglas. Prém havia uma grande diferença. Ele não era Douglas, contudo, Pretty acreditava que estar com Simon seria melhor do que estar com Douglas, pois, na maioria das vezes, quando dois velhos amigos se tornam mais que amigos, logo em seguida, tendem a se tornar estranhos.
Simon fazia Pretty feliz, isso não se podia negar. No final das suas conclusões, Douglas pensou que ela sempre pertenceu a Simon. Portanto, não tinha mais nada que o prendesse em Dallas. Alistou-se na aeronáutica, organizou as suas malas, vida e pensamentos, e foi servir à nação, prometendo para si mesmo que não mais voltaria a desejar estar ao lado de Pretty. Não desejava desestabilizar a vida da moça com suas promessas de vida melhor, com suas declarações para um futuro brilhante. Não, agora, que ela tinha encontrado um cara capaz de ajudá-la a superar os problemas de família. Então, convencido de que tinha a perdido, Douglas despediu-se da moça sem abraços, sem lágrimas e palavras. Um olhar a distância falou mais do que eles poderiam expressar. Estava claro, no azul-cobalto dos olhos da moça, que ela estava triste, mas fizera a escolha. Não podia voltar atrás. Então, Douglas apenas foi embora.
Sendo eles tão jovens, o tempo não se importou em perpassar por eles, fazendo com que os anos se acumulassem sobre os seus ombros, e mostrando que nenhum plano vingará se não for do querer dele, o tempo. A Pretty, ele tratou de mostrar que nenhuma beleza resiste ao seu poder, os cabelos e a pele se tornam menos vistosos, os olhos menos brilhantes, as forças se desvanecem. Mostrou, também, que, por vezes, fazemos escolhas erradas e que ninguém, absolutamente, poderá mudar o que foi feito. Ao Douglas, encarregou-se de evidenciar que, quando perseguimos os nossos desejos mais profundos, alcançamos, com louvor, tudo o que foi almejado. Porém mostrou também que, mesmo possuindo tudo o que foi querido, quando desistimos de lutar por coisas pequenas, mas que são sinceras, não poderemos viver sem lembrá-las. Pois há pessoas que nunca poderão ser esquecidas.
Douglas possuía uma bela mulher e duas crianças adoráveis, contudo, seus pensamentos não deixaram de habitar o pequeno bairro, em Dallas. Pensava em como estaria Pretty, o que fazia da vida, se ainda tinha vida. E não demorou muito para que os seus caminhos voltassem a se cruzar, por causa de uma ligação qualquer, no meio da madrugada.
- Douglas – murmurava uma voz lamuriosa e conhecida, do outro lado da linha. – Eu preciso de você...vem me encontrar – logo depois, o som do final da ligação.
Catatônico, o rapaz, agora um homem feito, comandante da aeronáutica, reconheceu a voz e não hesitou em preparar uma pequena mala, pegar a chave do carro, durante a madrugada, e dirigir de volta para o lugar onde nunca pensou que voltaria outra vez. Entretanto, as circunstâncias eram outras, o momento era outro, e a moça mais linda que já conheceu na vida ligara pedindo a sua ajuda. Não poderia negá-la. Como há tempos passados, ainda estava disposto a desistir dos seus futuros sonhos por ela. Isso nunca mudaria.
Ele dirigiu por milhas e milhas, observado a paisagem bucólica da estrada, lembrando-se de anos idos, recordando os tempos de garoto, quando pouco sabia da vida, mas era mais corajoso do que agora. Ao raiar do sol raiou, dias depois de sair de casa, com uma centena de ligações da mulher no celular e o corpo exausto, chegou ao seu destino. O subúrbio de Dallas permanecia da mesma forma que o havia deixado, as casas, as ruas, somente as pessoas tinham mudado. Parou o carro de frente para a casa onde Pretty morava com a família anos trás e ficou lá, sentado no capô do carro, enquanto uma fina garoa caía intermitente.
- O senhor procura por alguém...? – indagou um garotinho, aproximando-se do carro. Douglas passou alguns instantes calado, pensando em como descrever a mulher que conhecera.
- Procuro por uma garota do sorriso quebrado, tristonho – Douglas disse, sem certeza alguma das suas palavras. – Mas você não a conhece... – dando de ombros, o garotinho se afastou e foi embora.
Neste momento, na casa vizinha a que Douglas estava parado, avistou uma mulher de olhar alquebrado e movimentos frágeis. Rapidamente, ele correu para ela. Sem dúvida, era a Pretty, morava, agora, na casa que antes foi da família de Douglas. Estava mais pálida, tinha pequenas cicatrizes no rosto, o cabelo menos vivo e descuidado, mas, para ele, ainda continuavam extremamente linda, tão linda como quando tinha dezoito anos. Ao vê-lo e reconhecê-lo, Pretty desceu o lance de escadas da varanda e atirou-se para os seus braços, deixando que as lágrimas fluíssem de seus olhos e ensopassem ainda mais o terno molhado do homem, o homem que nunca devia ter deixado ir embora.
- Ele fez isso com você...? – indagou Douglas, acariciando o rosto maltratado de Pretty. – Onde ele está? Vou me acertar com ele!
- Ele está no trabalho – ela disso, dando pouca importância ao que Douglas dizia. Estava encantada com a aparência bem cuidada do homem. – Você está tão lindo...
- Você também.
- Não minta. Agora eu sou feia e mal amada – ela sorriu o seu sorriso quebrado. – A vida nem sempre é um conto de fadas...eu perdi você.
- Meu coração sempre esteve cheio, esperando por você. Dizer adeus não significa nada. Se você me pedir, vou segurá-la toda vez que cair – dizia, enquanto afagava seus cabelos, os rostos colados, os olhos mergulhados uns nos outros.
- Eu pensei que você não viria – ela murmurou, sob as carícias dele.
- Dirigi por milhas, desejando te ver outra vez...
- Por que você não veio antes...? Eu precisei tanto...
- Você me deixou ir...eu não podia voltar.Tenho filhos e uma mulher, agora.
- Eu poderia ter sido a sua mulher – ela se lamentou, as lágrimas escorrendo por seu rosto. – Eu estive tão triste, durante todo esse tempo. Você me parece feliz.
- Conheço você melhor do que ninguém, Pretty. Sei por que você é o que é. E isso torna você uma das pessoas mais importantes da minha vida.
- Mas há coisas que não são para ser – ela concluiu. – Eu precisava ver você mais uma vez, saber como estava. O tempo passou para nós e já não somos mais tão certos um para o outro.
- Por favor, não se esforce tanto para me dizer adeus outra vez. Eu sempre poderei cuidar de você...você será sempre amada.
Abraçaram-se, como se daquilo dependessem as suas vidas. Quando jovens, tinham planos distintos, caminhos divergentes para serem seguidos. Agora, o tempo deles já havia passado, porque há coisas que não são para ser...nunca serão.


Tiago Santos

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