domingo, 21 de agosto de 2011

(crônica do dia) Alma de artista


Há muito queria roubar um tempo para mim mesmo, mas faltava-me inspiração para tanto...estranho, não? Estar com preguiça para conversar consigo mesmo, pensar em besteiras, sorrir sozinho e se apaixonar novamente pelo reflexo no espelho, ao melhor furor narcisista que possa existir; porque toda vez que penso sobre mim, sinto-me cada vez mais atraído pelo que a natureza fez e que de meu nome foi nomeado. Não me julgue nem se faça de hipócrita, que pensa mais nos outros do que em si, você não é Thereza de Calcutá...assim como eu, você se fascina e se orgulha do que ver no espelho, caso tenha o mínimo de amor próprio. Então foi o que fiz. Tinha, perdida entre os meus vinis cibernéticos, uma relíquia, Cazuza cantando em blues uma letra d’Os Paralamas...perfeito para o momento, concorda?  Nada muito nostálgico, um pouco de amor e derrota é dose suficiente para inspiração. 
Acendi um cigarro...merda! Há quanto tempo eu queria fazer isso?! Fui tão afoito ao pote que queimei parte dos dedos com o meu isqueiro exagerado que mais parece um lança-chamas. Se esse isqueiro falasse, levaria o seu dono às fogueiras da inquisição que são as línguas afiadas de quem não tem o que fazer e prefere fazer nada na vida dos outros. Entendeu? Não...? Paciência, vamos em frente. Busquei na cozinha vestígio de vodka, não precisava ser de qualidade, bastava ter alto teor de etílico e a chave premiada para o inconsciente. Não encontrei a porcaria da vodka, porém uma garrafa de vinho que ganhei de aniversário no ano retrasado foi tão atraente quanto.
Sabe quem me deu esse vinho? Aquele cara com quem fiquei há trezentos anos. É, aquele mesmo. O do olho claro, muito músculo e nada na cabeça. Caralho! Ele não entendeu que foi só aquela noite e acabou. Por que as pessoas acham que a gente passa cinco horas com elas e já devemos casar? Não me apetece essa estirpe que ama tão fácil quanto odeia. Amar não é fácil, caramba! Já odiar, é mais fácil do que vomitar depois de uma bebedeira desmedida. Afirmo isso com todas as propriedades cabíveis. Tenho asco a gente com quem nunca troquei meia vírgula direito. Conheço espécies no cheiro e no olhar mais rápido possível. Sou bom observador e muito bom ‘cheirador’. É instinto. Sou bicho. Você também é! Não afirme o contrário, ou estaria você mentindo, e mamãe já dizia que mentir é feio. Como sinto cheiro de uma boa carne feminina, um bom filé de barba, também sinto o ‘aroma’ acre de quem não tem boa conversa, de quem é fútil, de quem pouco entende da vida além da televisão. Pessoas vazias não me enchem a barriga! Sabe como é...povo que não se entende como povo. Deus dos outros, tem piedade desses desconhecedores do que é viver, pai dos outros. Todavia, deixemos de lado essa ânsia de vômito. Mudemos de assunto.
Já armado com mais um cigarro, minha garrafa de vinho e meus orgasmos múltiplos com Cazuza sussurrando ao meu ouvido, melhor ir para a varanda, vou olhar pela janela e ver o que mais agrada aos meus olhos: o céu sem estrelas, somente a meia-lua fitando-me tão sexy que poderia ir para a cama celeste com ela fácil fácil...como seria ter um filho com a lua?! A verdadeira mistura do divino (eu, claro) e do profano (a lua, óbvio). Acredite se quiser. Aquela beleza opaca traz recordações boas. Lembro o perfume molhado de um cabelo lindo no qual me embrenhei certa noite dessas, os nossos corpos encharcados, colados, desfrutando do melhor  que o universo podia oferecer. Estaria eu amando novamente?! Não, absolutamente. Já disse que amar não é fácil, mas ter tesão e fascínio é. Como eu queria tê-la aqui comigo, e sentir tuas curvas, e sorver o veneno dos teus lábios, e morrer nos teus braços e matar a minha fome, e sorver teu colo e matar minha fome para morrer outra vez. Talvez sonhar, talvez só morrer. Porque morremos todas as noites para renascer na manhã seguinte. Boa noite, quem é da noite. Sou da noite e sinto tanto por ela não ser minha.

     Meu cigarro está no final...minha carteira, na verdade. Fumei ou mastiguei? Acho que um pouco dos dois. O vinho se foi também. Pelo menos aquele cara serviu para uma coisa, pena que nem brindei em sua homenagem. Ah, vai à merda. Seu vinho foi bom, contudo, sua companhia não valeu mais do que horas. Acho que já posso dormir, agora. Pensei e falei mal de tudo, típico meu. Não estou bêbado...queria estar, só assim ia esquecer teus lábios, teu perfume, teu toque, e tua voz quase soprada. Boa noite, minha pequena, e só fetiche, fica bem. Cazuza também te saúda e já se despede...a música arranha já os meus ouvidos. Chega. Acabou. Vou morrer e sonhar contigo.


Tiago Santos

2 comentários:

  1. Fico feliz em encontrar outro escritor aspirante! Te encontrei na comunidade Editora Draco e resolvi te seguir no blog, siga o meu também para fortalecer mutuamente!

    curiosamente tenho dois livros escritos sobre sonhos: Adormecidos e a continuação O Despertar de Hipnos: http://editora.webstorelw.com.br/products/adormecidos

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