sábado, 6 de agosto de 2011

(comentando) O que se entende por música?


Faço-vos uma pergunta clara e direta – a qual nomeia mais esse comentário –: O que se entende por música? Na minha singela visão de quem pouco sabe ou conhece do assunto nas suas vertentes mais profundas, música é a união perfeita de letra e melodia, que resulta de um processo de criação quase orgasmático do artista. Estou falando de música de verdade, não da deturpação de som que hoje toma conta do nosso estado, a Bahia. A música bem feita (ao Caetanear, Bethâniar, Cazuzear) é o ápice da capacidade humana de conseguir unir num único conjunto duas formas de arte criadas em fases distintas (literatura e harmonia de sons). Na intimidade dos meus fones de ouvido, procuro ouvir músicas que acresçam sensações prazerosas e que me leve a refletir sobre o que diz a poesia embalada pelos acordes bem arranjados de meses, talvez anos, de trabalho. Contudo, essa essência de música como arte que é está escorrendo pelo ralo da ignorância das pessoas. A música deixou de ser um instrumento de esclarecimento e conforto e passou a ser, como boa parte do que existia de melhor no mundo, produto de massa, para ser consumido em pouco tempo, no caso da Bahia, tornando nacional o conhecimento do uso da música aqui para denegrir a imagem da mulher, fazer claras apologias ao tráfico de drogas e, simplesmente, falar nada com coisa alguma.
Talvez esteja me tornando ‘velho’, ranzinza e chato, mas o que quer dizer uma letra que contém na sua grande maioria: “Vá, vá, vá vá vá!” Para onde?! Ou então: “Sim, sim, sim, sim, não, não, não”. O quê?! Conversando com um músico amigo meu, ele me contou que, certa vez, estava com sua banda ensaiando num estúdio quando uma ‘famosa banda’ baiana chegou para escrever, ensaiar e gravar o que seria o novo sucesso do verão. Os caras fizeram tudo em menos de uma hora, desde a concepção da letra à composição da melodia! Enquanto Chico trabalha já há alguns anos no seu novo disco, buscando garimpar o melhor que sua mente criativa pode nos oferecer. O fato é que a ignorância, o desconhecimento, no qual o nosso povo foi afundado, sai pela boca e entra pelos ouvidos. E o mais incrível é que eles não conseguem perceber isso. A mulher que, ao ouvir “As pirigetes chegaram!” grita: “Oba!” não merece o meu respeito nem o respeito do resto do mundo. Lutaram tanto, foram queimadas vivas nas fogueiras e nas fábricas, e se deixam reduzir a uma “Quebra, ordinária!”? Essas envergonham as que um dia deram suas vidas pela ascensão da classe ante o mundo machista.
Se concordam que “mulher é igual a lata, um chuta e outro cata” ou “mulher é como cachorro-quente, só serve com a salsicha dentro” ou “trá-trá, ela ta toda metralhada” podem renunciar o seu direito ao voto, deixar de lado as suas regalias e se anunciar submissa aos homens que as transformam em meros pedaços de carnes se remexendo como num ataque cardíaco sobre um palco de uma dita ‘banda’ que toca ‘pagode de protesto’. Na Bahia, são poucas as bandas de pagode que verdadeiramente fazem pagode de qualidade e merecem, senão a nossa simpatia, o nosso respeito. Pouquíssimas. A coisa já era vergonhosa quando somente nós, baianos, tínhamos conhecimento, imagine agora que todo o país sabe? Éramos menosprezados pelo sul e sudeste, que nos tinham como inferiores e preguiçosos. Agora, além disso, somos também incultos!
O projeto da deputada Luiza Maia não proíbe o pagode (só quem chega a essa conclusão são os pagodeiros estólidos, que estão perdendo neorônios por causa do som vagabundo que ouvem e não conseguem raciocinar corretamente sobre a proposta da deputada). O projeto visa impedir que o poder público patrocine ‘bandas’ que têm em seus repertórios ‘músicas’ que incitem a violência contra a mulher (como aconteceu com o Jamil, há algum tempo, com a música do “Lança Perfume”, apologia clara ao uso de drogas, que foi proibida de ser tocada no Carnaval do ano em questão). A única coisa que me dá medo nesse projeto é a insinuação sutil de uma censura anunciada, sem falar que se trata de uma empreitada de proporções megalomaníacas, onde teria de existir uma fiscalização enorme sobre todos os municípios do estado da Bahia. Fiscalizar a liberdade não é censura, ainda que por causa nobre e justa?
O que falta ao nosso povo, e principalmente às mulheres que dançam ao som de ‘músicas’ depreciadoras, é cultura e conhecimento. Grande parte do que há de melhor na música popular do Brasil saiu daqui, da Bahia, (Gal, Gil, Bathânia, Caetano, Tom Zé, João Gilberto, Armandinho, Brown e tantos outros). Devíamos nos orgulhar e seguir o caminho dos mestres. Mas, não; fazemos o percurso inverso, regredindo. Ou não...às vezes paro e penso: talvez essas ‘bandas’ evoluíram e eu que fiquei para trás e sou tão atrasado mentalmente que não consigo compreender a profundidade da poesia: “tome, to-tome, to-tome, tome rú”!
Tiago Santos

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