sábado, 21 de maio de 2011

(crônica do dia) A Nova-Ordem Mundial




Depois do grande sucesso que foi a Quarta Parada do Orgulho Louco, em Salvador, acabou-se por decidir a soltura dos ditos “loucos” que estavam enclausurados em prisões manicomiais e deixá-los livres para tomar decisões próprias iluminadas por toda sua insanidade. Contudo, sabendo que crises são freqüentes em portadores de problemas mentais, casas de apóio permaneceriam funcionando, caso fosse preciso assistir a algum paciente durante um período de 48 horas. Houve festas e comemorações em muitas cidades do Brasil, os malucos, já libertos, foram às ruas para confraternizar e realizar algumas loucuras, como pular em piscinas vazias, saltar muros inexistentes, conversar com pessoas invisíveis; em suma, ser feliz.
Tudo caminhava bem, seguindo seu curso normal-anormal do país. Poucas pessoas reclamaram meia dúzia de palavras indignadas, mas permaneceram apáticas, como de praxe. O que ninguém sabia era que os recém-libertos malucos se reuniam às escondias em casarões abandonados e discutiam, tais quais agentes secretos da Polícia Federal, os novos rumos do Brasil. Passaram semanas assim, esquematizando, tramando passos para a conclusão eficaz do plano.
Então não demorou muito para que, fazendo-se inofensivos, conseguissem seqüestrar a presidente e capturar todos os senadores e deputados de Brasília. A horda nada proba foi agrilhoada em caminhões-baús, a contragosto. A presidente tentava argumentar com os algozes, até ontem tidos como loucos, para a soltura do engravatados. No entanto os malucos permaneciam irredutíveis. Haviam tido muito trabalho para enganara todos se fingindo insanos, portanto não iriam fraquejar agora.
A presidente, os deputados e os senadores foram distribuídos e presos em manicômios desativados por todo o país, sendo obrigados a ficarem amarrados em camisas de força aos pés das macas envergadas de velhas, ingerindo alimentos de má qualidade e sendo medicados com comprimidos vencidos. Banhos de sol nem muito menos de água seriam permitidos até que os governantes aceitassem as suas situações de prisão perpétua na condição de loucos que eram.
Depois disso, foi a vez dos “malucossensatos” assumirem os cargos deixados vagos pelos governantes. A princípio houve revoltas populares pequenas, mas que foram facilmente contidas com conversas amistosas, nas quais os novos governantes pediram uma chance para mostrar que eram tão sãos quanto todos.
E isso aconteceu. Menos de um mês após estabelecida a Nova-Ordem, aconteceu um avanço estúpido na qualidade de ensino, saúde e lazer na país. A economia fortaleceu-se e deixou para trás potências como China e Japão, as obras para a copa foram concluídas em tempo recorde e com o menor orçamento do milênio. Os índices de violência reduziram-se a quase zero, e os morros do Rio de Janeiros foram completamente pacificados. As pessoas caminhavam nas ruas sem medo algum. A Nova-Ordem alavancou o Brasil ao posto de nova potência mundial. E assim, nunca mais se ouviu falar em políticos corruptos ou miséria no país, pois loucos éramos nós que não escolhíamos os loucos certos para nos governar.

Tiago Santos

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