quinta-feira, 24 de março de 2011

(pensar) As Folhas.





O que leva um grupo de garotos a atirarem pedras e garrafas de cerveja contra um posto policial, sem nenhum motivo aparente? Nascemos todos como uma folha em branco, prontos para sermos pintados, ou melhor, bombardeados, com diversas cores e formas. Fato que independe, sob o meu ponto de vista, de qualquer propensão genética ou degeneração da mesma. A partir da compreensão do mundo em nosso entorno é que desenvolvemos a capacidade de aquiescer ou objetar quando algo nos pareça, de alguma forma, insatisfatório. Contudo, é analisando o meio onde vivemos, também, que podemos ser guiados na direção de caminhos sinuosos, quando se toma por base, para o desenvolvimento pessoal, um referencial marginalizado, talvez o único existente ou o mais próximo.
A nossa sociedade é regida por normas e parâmetros predefinidos há muito. No entanto, são inegáveis as evoluções pelas quais estas normas vêem passando, e que, um dia, nossos antecedentes nunca poderiam ter imaginado. São estas normas as responsáveis em nos encaixar dentro das porções generalizadas, explicadas por Durkheim como Fato Social – modo de agir, pensar, de se comportar comum a todos ou a grande maioria. Todavia, em todas as sociedades existem as “anomias”. E são dentro destas porções anômalas que surgem os garotos, todos menores de doze anos, que depredaram um posto policial, em meio à grande movimentação de uma feira livre no Nordeste de Amaralina, em Salvador, pondo em risco a integridade de transeuntes inocentes, à medida que lançavam, sem reservas, garrafas em todas as direções.
Frutos do meio, garotos como estes surgem a todo momento em nosso país, onde cenas violentas protagonizadas por menores ainda chocam, mas logo são esquecidas e entram para as estatísticas. Também eles nascem bem como nós, folhas brancas, entretanto, são pintadas conforme a realidade que vivem, onde nutrir aversão à polícia é questão de sobrevivência. Muitos viram seus referenciais serem levados pelos soldados, apenas voltando a reencontrá-los anos depois, ou, na maioria das vezes, o reencontro não acontece.
A culpa pelo crescente número de jovens realizando crimes graves não é de ninguém senão nossa, que não sabemos eleger, não sabemos cobrar e não sabemos falar. No conforto de nossas casas, esquecemo-nos da selva na qual o mundo se torna a cada dia. Assistimos nos telejornais notícias de crianças matando, promovendo sequestros, e o que fazemos? Exclamamos duas ou quatro palavras de revolta e nada além. A indignação tornou-se paralítica, já que não somos diretamente afetados pela forma como estes jovens vivem nas ruas. Esquecemos como nos organizar para lutar contra disparates, mesmo já tendo feito isso antes.
Jovens marginalizados não pertencem à nossa zona de conforto, então por que gritar por eles? Simples. Porque, independente de classes sociais ou outros fatores, todos fazemos parte de um único povo, e é, no mínimo, desumano não querer e lutar pela mudança, não desejar ver o país crescer, não somente com relação à economia – o que está em alta atualmente –, mas também com relação à educação e melhoria de vida para o nosso povo. O Brasil não evolui nos aspectos humanos, porque visamos apenas o nosso bem estar, digladiamo-nos uns contra os outros para ver quem chega mais longe, quem pode mais. Enquanto isso, debaixo dos nossos olhos, crianças nascem, crescem e aprendem no mundo do crime, porque nunca souberam como é ir a uma escola onde não haja a influência das armas e das drogas, onde o referencial de poder é o traficante que comanda a favela e sobreviver é não gostar de policiais. Nestas folhas, as únicas cores que podemos ver são as que não queremos e descartamos.
Tiago Santos

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