
Naquela ocasião o shopping encontrava-se ainda mais cheio do que o normal. Atravessar todo o hall principal e alcançar a escada rolante, que levava ao andar superior, tornou-se um transtorno. Agora compreendo que o mundo conspirava contra todos nós que resolvemos ir às compras naquele dia.
Por fim cheguei ao primeiro andar do shopping que, assim como térreo, estava apinhando de gente observando as vitrines e conversando alto. Caminhei durante algum tempo, tentando encontrar algo que pudesse agradar a minha, afinal, era aniversário dela e havia saído de casa antes mesmo dela acordar, assim a surpresa seria maior quando eu voltasse.
Entrei numa livraria e acabei comprando alguns livros para mim e um novo quite de desenho para eu começar a trabalhar no meu quadro, porém não achei nada para Amanda. Subi ao segundo piso, olhei lojas de bolsas, sapatos, vestidos, mas em nada conseguia ver o gosto dela. Foi então que, finalmente, ao passar por uma bela vitrine iluminada, vislumbrei um lindo colar de pedras. O preço não era muito convidativo, entretanto, nada agradara-me mais do que aquela jóia.
Adentrei na luxuosa joalheria e uma funcionária, muito bem vestida, atendeu-me prontamente.
- Olá, senhor. Tudo bem...? Poderia ser-lhe útil?
- Claro – respondi tentando ser tão gentil quando a moça. – Poderia, por favor, pegar aquele colar de pérolas rosa que está na vitrine?
- Agora mesmo, senhor. Queira sentar-se – a moça apontou-me um pequeno sofá branco onde postei-me a esperar enquanto ela ia até a vitrine retirar a jóia.
A loja, iluminada à meia luz propositalmente, trazia um aspecto aconchegante. Alguns clientes escolhiam jóias e saboreavam um bom vinho servido pelos seus respectivos atendentes. O assoalho de madeira muito bem lustrado refletia as lâmpadas encravadas no teto de gesso modelado. Não era uma loja onde qualquer pessoa entrava e saia levando alguma peça do mostruário.
- Aqui está, senhor – a moça que me entendia voltou, trazendo o colar dentro duma bela caixa vermelho-grená acolchoada.
Tomei-o nas mãos e olhei-o outra vez com mais clareza. Sem dúvidas, perto ele era ainda mais lindo. Amanda iria gostar do presente.
- São pérolas do Mar Mediterrâneo – a atendente falou, recebendo novamente o colar.
- Eu vou levar – findei a conversa num sorriso simpático.
Outra vez a moça afastou-se, porém agora indo ao caixa onde passou a jóia para outra mulher que sem demora começou a finalizar a compra. Foi nesse momento que um casal muito distinto entrou na loja de mãos dadas. Pareciam felizes. Uma outra atendente aproximou-se deles e o homem falou-lhe algo ao ouvido.
A expressão no rosto da atendente mudou de maneira drástica. A face enrubesceu-se e os olhos tornaram-se maiores. Sem titubear, ela caminhou até a entrada da loja e acionou um botão ao lado da porta. Com estardalhaço, que assustou a todos os cliente, exceto o casal que acabara de chegar, a porta automática foi descendo e aos poucos lacrou a entrada.
- Tudo bem, fiquem todos calmos, pois isto é um assalto – dizendo isso o homem tirou uma arma que estava embaixo do seu casaco enquanto a sua comparsa já caminhava para o balcão do mostruário, também de arma em punho, para recolher as jóias. – Nós não queremos machucar ninguém, vamos apenas pegar as jóias e sair.
- Isso é obra do demônio! – esbravejou uma senhora do outro lado da loja, erguendo a sua bíblia.
- Não, eu não me chamo demônio, minha senhora – respondeu o assaltante sem sair do seu posto.
- Eu vou ligar para a polícia – a mesma senhora falou, metendo a mão na bolsa e tirando de lá um parelho celular.
- Não faça isso! – gritei estático, tentando impedi-la, mas foi em vão. A senhora discou um número e levou o aparelho ao ouvido.
Um estampido ensurdecedor ecoou pelo lugar e a senhora tombou no chão com a bala enterrada no peito. Uma mulher gritou desesperada, abaixando a cabeça para não ver a cena.
- Mais algum engraçadinho que ir visitar Deus antes da hora...? – ninguém moveu um só músculo, todos estavam catatônicos, observando o corpo sem vida da senhora derramar sangue, criando uma poça sob ela. – Foi o que eu pensei.
Eu não reagiria ao assalto de forma insensata como fez aquela senhora, mas precisava fazer alguma coisa que ajudasse a identificar o casal de assaltantes depois que eles saíssem. Vagarosamente, peguei o material de desenho que havia comprado – uma folha em branco e um lápis foi o necessário. Sem que percebessem, comecei a desenhar os rostos dos assaltantes, destacando os principais traços faciais dos dois. Levei apenas alguns instantes para finalizar os desenhos que, devido ao meu nervosismo, saíram trêmulos.
Poucos minutos depois o casal já se preparava para deixar a loja. A bolsa da mulher recheada de jóias e nas mãos do homem as fitas de segurança das câmeras internas.
- Nenhum de vocês nos viu aqui – disse o homem, apontando a arma na direção de todos.
Porém, uma rajada de vento, que não sei de onde veio, acabou por lançar o desenho que fiz no meio da loja. O papel voou e parou próximo aos assaltantes. O homem abaixou-se, pegou o desenho, analisou-o e olhou da folha para mim, apontando a sua arma. Tentei falar alguma coisa, mas já era tarde demais. O resto foi escuridão.
Tiago Santos
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