domingo, 11 de abril de 2010

Estado de Sanidade



Estava vestido em trajes de gala. Terno, gravata, mocassim bem engraxado, e cartola. Tudo em perfeito estado. Na mão direita, uma bengala negra, entalhada, ostentava alguns cristais que reluziam com o movimento das passadas, largas e determinadas.

O convite que recebera era tão específico e minucioso quanto aos detalhes que chegava a ser ofensivo. Por isso cumprira a rigor os requisitos que viu assim que o recebeu.

Um jantar de proporções palacianas, sem precedentes na história da pequena cidade, os membros mais importantes e influentes estariam presentes, sem sombra de dúvidas, talvez para distrair-se somente acompanhados de suas mulheres, ou então fazer a velha política disfarçada, distribuindo simpatia aos que lhes ousassem dirigir o olhar.

E lá ele ia. Chegou à porta do luxuoso restaurante, e lançou um último olhar sobre a beca, “impecável” – pensou, no auge de sua sanidade, tanto mental quanto espiritual. Prepara-se uma semana inteira para aquela ocasião. Respirou fundo e só então entrou, esbanjando charme e vigor.

Sentou-se em uma mesa, e fora logo atendido por um prestativo rapaz que sem demoras serviu-lhe as entradas. Torradas, patês de vários sabores, e um vinho branco para acompanhar.

Estava mais que satisfeito. O clima era de descontração. Havia, por todo o restaurante, moças bonitas e rapazes elegantes, galanteadores, coitadas das jovens que passassem por seus caminhos, seriam cortejadas ao estilo Don Juan.

Nunca sentiu-se tão feliz como naquele momento. Radiava felicidade, quando sentiu um baque acometer-lhe pelas costas. Fora tão forte que lançara-lhe no chão com ferocidade.

- Recolhe o indivíduo! – rugiu o agressor atrás dele.

Subitamente todo o restaurante desapareceu, dando lugar uma rua imunda, onde um homem mal-vestido e sujo tentava refazer-se do solavanco que recebera do policial troncudo .

O homem estava sentado em um caixote, comendo restos de lixo espalhados pela rua. Ao redor, prostitutas e viciados observavam a ação dos policiais.

- Ah... esse é o maluco que roubou uma senhora no mercado – disse uma prostituta.

- Quem é que dá trela para um cara como esse, todo mundo sabe que ele é doido! – terminou um viciado voltando a cheirar a carreirinha de pó.

Tiago Santos

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