A noite soprava sombria, as notícias que chagavam no meu castelo, vindas do mundo mortal, não faziam-me gosto algum, pelo contrário, apenas me deixavam mais preocupado e apreensivo do que poderia estar às vésperas da escolha presidencial no país. Durante meses escamoteei companheiros vampiros no Planalto pra que nada desse errado na eleição e na apuração dos votos. Tínhamos um acordo com os humanos e estava na hora deles honrarem com a sua parte do trato, aquele era em que um dos meus assumiria o controle como presidente. Trabalhei muito para que tudo estivesse ao meu alcance e fácil de ser manipulado, porém uma notícia naquela noite fez-me tremer; de raiva.
- Alteza, temos problemas. – Artur, um dos meus leais companheiro irrompeu pelo grande salão comunal, onde a iluminação à meia luz contrastava com as imensas cortinas vinho que desciam do teto e tocavam o chão escondendo grandes janelas de vidro por onde eu podia ver todo o reino, mas que naquele momento impediam a entrada dos raios da lua.
Há algum tempo conferir à Artur a função de informar-me sobre o que acontecia fora dos arredores do nosso mundo. Mas fazia duas semanas que as novidades não eram boas, e pareciam piorar a cada momento.
- Armando, o Bico Seco, mandou atear fogo no morro leste, em São Paulo. – Artur estava afoito e mais pálido do que de costume.
- Era nesse morro que Silas deveria estar! – urgir levantando-me do adornado trono de revestido de ouro e veludo vermelho.
Dia anterior, durante uma reunião do conselho, decidimos que Silas, nosso candidato à presidência, fosse ao morro leste fazer as suas últimas visitas de campanha liquidando assim os votos dos concorrentes e conquistando os que o levaria à vitória.
- Justamente, Alteza. É isso que tenho para contar-lhe, - a face do jovem Artur fez-se penumbra – Antes que as labaredas consumissem o morro Silas foi preso no porta-malas do carro dele e foi queimado junto com todo o resto. Os outros vampiros que o assessoravam conseguiram voltar para cá.
Naquele momento sentir faltar o ar em meus pulmões, o sangue do meu corpo concentrou-se nos meus olhos, antes azuis, agora vermelhos. Por alguns instantes permaneci em pé, com o pensamento longe. Várias possibilidades pairaram sobre minha cabeça, mas uma parecia ser a mais racional, bem peculiar ao estilo mortal dos humanos.
Possuía a certeza de que o fogo que consumira aquela favela não havia sido ateado em conseqüência de nenhuma rixa entre bandidos. Armando, o maior traficante de São Paulo, mantinha estreitas relações com o alto escalão do governo e ele não incendiaria a favela que ele próprio comandava por motivo algum. Fora pago por alguém para matar Silas e eliminar parte dos seus votos. Porém o fato que mais irritava-me naquele momento era que apenas nós, vampiros, sabíamos que Silas estaria naquele morro.
- Devemos tomar bastante cuidado, Artur. Nunca pensei que fossemos traídos de forma tão baixa. – esbravejei como se a larva de um vulcão saísse pela minha boca – A mutação dos humanos agora começa a nos afetar. A nossa raça, pura e limpa de todos as manchas começa a se infectar com a sujeira dos mortais. – voltei-me a sentar mais calmo e pensativo.
- O que devemos fazer, senhor? As eleições começam amanhã. – Artur compartilhava comigo das mesmas preocupações e raivas.
- A imprensa deles irá noticiar o acontecido, e penso que os eleitores não irão gostar de saber que o seu favorito foi assassinado enquanto fazia a última visita de campanha. Teremos uma boa fração de tempo para fazer com que a notícia se espalhe por todo o país. Daí por diante a população enfurecida cuidará do resto, mas antes convoque estes nomes, e reúna-os no salão central em meia hora. – entreguei à Artur um pergaminho, que estava sob a minha capa, escrito com o meu próprio sangue, nele os nomes dos meus mais corajosos homens.
Artur fez uma reverência e saiu apressado do salão comunal.
Tiago Santos
Nenhum comentário:
Postar um comentário