sábado, 14 de junho de 2014

DARK PARADISE - Capítulo 03

A luminescência fluorescente do local invadiu despudoradamente as retinas de Gustavo quando ele abriu os olhos desorientado. Levou alguns segundos até que se acostumasse com a claridade exacerbada. Desnorteado, apavorou-se a perceber que não sabia onde estava, estranhando as paredes alvas e as lâmpadas brancas acesas sobre ele. O coração disparou e ele tentou se mover, contudo, uma fisgada aguda retesou a sua nuca, doendo de forma pavorosa. Soltou um arquejo encolerizado, percebendo os músculos do corpo também doerem um pouco. Tencionou gritar, pedir socorro, afinal, não fazia ideia de que lugar era aquele, no entanto, um toque familiar pousou sobre o seu braço e ele virou o rosto para olhar quem o tocava.
Yury estava de pé ao seu lado, segurando o braço de Gustavo, os olhos vermelhos e a expressão preocupada no rosto. Quando o namorado abriu os olhos, assustado, as feições de Yury tornaram-se menos urgentes e ele conseguiu também sorrir um sorriso de alívio.
- Graças a Deus… - Yury suspirou profundamente. - Fiquei tão preocupado.
- O que aconteceu? - Gustavo sentiu dificuldade em empostar a voz que saiu quase como sussurro. A boca e a garganta secas o incomodaram e ele pigarreou. - Que lugar é esse?
- Eu trouxe você para uma clínica, meu amor - Yury respondeu, beijando o rosto de Gustavo. - Eu também não sei ao certo o que aconteceu. Você saiu da adega para fazer uma ligação, demorou para voltar e eu fui te procurar. Encontrei você apagado no salão principal do bar, com a cabeça sangrando. Fiquei desesperado. Coloquei você no carro e trouxe para esse clínica, a mais próxima que eu achei.
Gustavo passou a mão levemente na nuca e percebeu-a inchada. Aos poucos, com a narração de Yury, recobrou a memória. Tinha mesmo sido acertado, mas não sabia dizer por quem.
- Quanto tempo fiquei dormindo?
- Algumas coisas...os médicos já fizeram todos os exames e acham que não houve nenhum dano grave, somente as lesões por causa da pancada - Yury dizia rapidamente. - Chamei a polícia e comuniquei sobre o que aconteceu. Eles já estão à procura do responsável, mas o delegado acredita que tenha sido algum morador de rua que provavelmente ainda estava dentro do bar, morando por lá, afinal, o lugar estava abandonado há muito tempo.
- Levaram alguma coisa? - Gustavo empertigou-se no leito
- Levaram a sua carteira.
- Droga, maravilha! - ironizou Gustavo, sentindo a cabeça doer um pouco mais.
- A carteira pouco importa, meu amor - Yury apertou a mão do namorado entre as suas. - Você está bem, é o que vale.
- Você pode me trazer um copo com água, por favor? - Gustavo sentia um enjoo estranho e julgou ser por causa da pancada.
- Trago sim, meu amor. Vou aproveitar para acertar a conta com a clínica e volto logo, tudo bem? Qualquer coisa, é só apertar esse botão vermelho - Yury indicou o dispositivo piscando na lateral da cama de hospital. - Eu já volto.
Dizendo isso, beijou de leve os lábios de Gustavo e desapareceu pela porta. O quarto mergulhou em um silêncio gutural e inquietante. O rapaz ajeitou-se novamente no leito, buscando a posição mais confortável. O cheiro de éter do lugar parecia já ter se impregnado nas roupas e pele de Gustavo. A primeira coisa que eu vou fazer quando sair daqui é tomar um banho, pensou ele, trejeitando a boca em desaprovação. Estar ali o fazia se lembrar do acidente, e recordação deixava-o nervoso, prova de que ainda não havia superado o episódio passado.
Ao lado da cama, numa mesa lateral branca, o celular de Gustavo começou a tocar, vibrando sobre o tampo e emitindo um barulho metálico. O rapaz apanhou-o rapidamente e olhou o visor. A ligação estava sendo feita de um número não identificado. Receoso, Gustavo atendeu. A princípio, não houve som a não ser estática. Quando preparou-se para desligar, alguém principiou a falar do outro lado da linha.
- Desista da idéia de reabrir o bar, Gustavo - a voz não lhe era familiar, e podia jurar nunca tê-la ouvido antes. - O melhor para você é deixá-lo fechado. É assim que tem que ser. O que aconteceu hoje foi apenas um aviso. Caso você insista na idéia, eu posso ser mais convincente da próxima vez.
A ligação terminou no exato momento em que Yury voltou ao quarto, trazendo o copo com água. Instantaneamente, percebeu a expressão perturbada no rosto de Gustavo.
- O que houve? Está sentindo alguma coisa? - pousou o copo na mesa lateral para aferir a temperatura do namorado, mesmo sabendo que isso não serviria para nada, estava apenas preocupado.
- Não - Gustavo balbuciou, perdido em pensamentos. - Não foi nada.
Esforçando-se para manter a serenidade, a voz do homem ao telefone ainda ecoava como trovão na cabeça de Gustavo.


***


É aconselhável que ouça a canção sugerida
para melhor visualização da cena.


- Senhoras e senhores, esperamos que estejam acomodados e confortáveis, pois a noite está começando. Não sejam tímidos, abram os cintos e deixem suas carteiras sobre as mesas, de preferência - a voz masculina e levemente afetada vinda do sistema de som soltou um risinho. - E, para começar, recebam ela: a inigualável, Aretha Schinneder!
As luzes estroboscópicas do lugar apagaram-se completamente e todos os homens presentes explodiram em aplausos, assovios e gritos acalorados. Segundos depois, um único foco de luz branca apareceu no fundo do palco principal, revelando a silhueta bem desenhada e farta da mulher que vinha se aproximando em direção à frente do palco com passos pequenos, como uma tigresa, desfilando e mexendo-se sorrateiramente, analisando os homens desesperados por atenção que se acotovelavam para se avizinharem um pouco mais dela.
Então, surgiram mais luzes no palco, clareando completamente o corpo perfeito da jovem mulher que sabia muito bem o que estava fazendo e fazia com propriedade. Audaciosa, sexy e linda, os cabelos loiros caindo-lhe sobre as costas, apontando para o bunda redonda e ampla, olhava no fundo dos olhos do seu público e mordia os lábios, atiçando-os ainda mais. Trajava um short minúsculo vermelho coberto de lantejoulas que cintilavam sempre que ela se movia. Nos seios, apenas dois tapa-sexos irrisórios, deixando o busto cheio livre, movimentando-se junto com ela. Os finos saltos dourados completavam a indumentária.
Graciosamente, abaixou-se na borda lateral do palco e passou a mão entre as pernas de um homem que assistia atentamente à performance, puxou o cinto dele, girou no ar e, depois, acertou a perna do cliente de leve, com ares de fetiche. Ele gostou e sorriu, depositando uma quantia considerável de notas de cem reais dentro do pequeno short da mulher. Ela curvou-se, numa meia vênia mais sexy do que respeitável e, rapidamente, correu para o centro do palco, dependurando-se com habilidade no poste prateado de pole dance. Lesta, realizava os movimentos com destreza, encantando os clientes novos e aqueles que já tinham visto o show várias vezes.
Um dia, ela desejou ser uma estrela. Só não sabia se seu tão desejado estrelato aconteceria daquela forma.



- Aretha Schinneder?! - caçoou Gustavo assim que a mulher desceu do palco e foi em direção ao bar, servir-se de uma bebida.
- Está achando ruim? - ela sentou-se ao lado dela, o rosto uma mescla de seriedade e bom humor. - Faz melhor, meu querido - gargalhou sonoramente, bebericando o martíni.
- Faço melhor com certeza! - Gustavo também sorria. - Esse nome é o pior que você já criou em toda a sua carreira.
- Novidade, Gustavo. As pessoas gostam de novidade! Eu precisava mudar de nome para atrair público. Ninguém gosta do que está ultrapassado - os dois passaram alguns segundos se entreolhando para gargalharem novamente. - O que você está fazendo aqui?
- Ué, vim ver a sua performance artística e conceitual - ele abraçou-a.
- Bunda e peito, você quer dizer - a mulher tinha um cheiro adocicado inebriante.
- Basicamente isso - Gustavo também bebia martíni. - Paris Café, - falou, enquanto observava o ambiente em volta, com mulheres andando de lingerie por todos os lados - você já frequentou lugares melhores.
- Em Paris, meu amor! Isso aqui é Brasil. É o que tem pra hoje. Sem falar que o Paris Café é a melhor boate do gênero do Rio.
- Do gênero do swing, né? - Gustavo pontuou.
- Exatamente. Se você veio aqui pra me dizer o que eu já sei, que isso é prostituição, que eu tenho um futuro melhor e essas coisas, é melhor ir dando meia volta. Sei bem disso.
- Não. Não vim falar sobre isso - Gustavo fez uma pausa. - Na verdade, é sim, eu vim falar sobre isso mesmo. Mas não vim te recriminar nem nada do tipo. Vim fazer um convite…
- Fotos pelada de novo no Cristo? - a mulher recordou um episódio vivido pelos dois há muito tempo. - Tô fora.
- Não. É outra coisa...Recebi uma herança do tio Elísio e preciso que você me ajude a catalogar umas dezenas de garrafas de vinho que ele me deixou.
- Ah, meu Deus, seu tio morreu? - a mulher estava verdadeiramente abalada.
- É pré-requisito para se receber uma herança, alguém precisa morrer - Gustavo sorriu.
- Ai, Gu, eu não fiquei sabendo, meus pêsames - ela o abraçou novamente.
- Não tem problema, já passou. A verdade é que eu preciso mesmo de você, Lira. Prometo pagar melhor do que te pagam aqui e você não vai precisar ir para a cama com ninguém por isso.
- Não sei - Lira ponderou, girando a bebida dentro do seu copo. - A questão não é ter que ir pra cama. É que isso é a minha vida. É a única coisa que eu sei fazer, desde sempre.
- Você é muito mais que perna e bunda - Gustavo retrucou, de maneira firme, porém logo voltou ao tom doce e casual. - Eu te conheço melhor do que ninguém. Sei do que é capaz.
- Você tem dinheiro para contratar qualquer outra pessoa, Gustavo.
- Tenho mesmo, mas faço questão que seja você - ele se demorou alguns instantes segurando as mãos de Lira e olhando-a com candura nos olhos. - Eu poderia contratar qualquer outra pessoa, mas estou chamando uma amiga...a minha melhor amiga. Por favor, pelos velhos tempos…
- Velhos o cacete, que eu ainda tenho 32 - Lira queixou-se, gargalhando outra vez. Depois de pensar e ponderar silenciosamente, voltou a falar. - Tudo bem, eu te ajudo. Não se recusa pedidos assim de amigos.
- Melhores amigos - Gustavo repetiu.
- Ah, tá, já entendi, Gustavo, melhores amigos. Precisa repetir isso o tempo inteiro, coisa de gay.
Novamente, os dois explodiram em gargalhadas entusiasmadas.
- É bom estar com você de novo - Lira beijou o rosto de Gustavo.
- O que acha de um almoço, para acertarmos os detalhes? - propôs o rapaz.
- Só se você pagar - Lira riu.


***


Yury deslizou sobre o corpo esculturam e suado do rapaz, beijando-lhe o peito, a virilha e mordendo-lhe as coxas. Davi estremecia sob o toque de Yury, a boca cerrada libertando gemidos contidos e os olhos fechados. Sentia Yury passar a mão em cada parte do seu corpo, explorando-o. Os corpos dos dois misturavam-se vorazmente, enquanto trocavam carícias provocativas e mordiam-se nos lábios, em beijos longos e quentes. Davi virou-se de bruços e relaxou, sentindo o peso dos músculos de Yury sobre ele. A boca do rapaz percorria toda a região da sua bunda, e Davi estava a ponto de explodir quando Yury penetrou-o com força, os dentes dele cravados em suas costas, e os gemidos vibrantes ecoando pelas paredes do quarto de hotel.

- Já anotou na a agenda no nosso próximo encontro? - Davi ironizou, vestindo-se. Yury estava saindo do banheiro, enrolado num toalha depois do banho.
- Quando você quiser - respondeu Yury, pegando a camisa e vestindo-a. - Você sabe o meu número.
- Se as coisas fossem quando eu quisesse, você seria meu há muito tempo - Davi era um jovem rapaz de 26 anos, olhos castanho-claros, quase dourados, com riscos verdes na íris. Os cabelos cortados baixos e profundamente escuros viviam arrepiados, em desalinho. A boca era uma massa volumosa, macia e vermelha, como morangos apetitosos, perfeitamente posicionadas no rosto angelical e delicado, porém atento e sempre em alerta. Parecia conseguir ver tudo o que estava acontecendo no ambiente ao mesmo tempo, frontalmente e pela visão periférica.
- A gente nem sempre tem o que quer - Yury passou a língua provocativamente nos lábios carnudos de Davi.
- E isso não é muito justo - o rapaz respondeu.
- A vida não é justa, Davi, mas é gostosa de se viver.
- Por quanto tempo vamos continuar nos encontrando às escondidas?
- Por muito - disse Yury, vestindo agora as calças do paletó. - E por vários motivos.
- Por causa do Gustavo? - quis saber Davi, também vestindo-se.
- Não só por isso, mas por causa do meu pai, por causa da nossa relação de trabalho. Afinal, você é contador na empresa dele, na qual eu também trabalho. Logo, manter qualquer relacionamento com você seria reprovável.
- Não me pareceu reprovável quando você me ligou hoje dizendo que estava com saudades - Davi olhou-o de esguelha, capcioso.
- Você não está satisfeito? - Yury perguntou ríspido. - Não podemos arriscar o que a gente tem. Você não pode arriscar o seu emprego, um ótimo emprego, diga-se de passagem. E eu não posso arriscar o meu namoro com o Gustavo.
- Mas eu gosto de você - Davi aproximou-se de Yury, deixando seus rostos a poucos milímetros de distância. - Gosto muito...
- Eu também gosto de você, - respondeu Yury - mas eu não posso - logo depois, afastou-se, para colocar a gravata. - Vou descer para fechar a conta do hotel e depois vou almoçar.
- Espera...vou com você. Já que me trouxe até aqui, que me leve até a porta também.

***
Gustavo e Lira chegaram ao hotel em poucos minutos e, logo na entrada, foram recebidos pela recepcionista que avisou que o restaurante estava com lotação máxima, porém que uma mesa não demoraria a vagar. Os dois resolveram, por fim, esperar na recepção, enquanto conversavam. Entretanto, quando Gustavo virou-se em direção ao balcão da recepção, deparou-se com Yury conversando com outro rapaz, o qual não reconheceu. Do outro lado do saguão, Yury parecia tê-lo visto também e, rapidamente, veio em sua direção, trazendo o outro rapaz ao seu lado.
- Amor, que coincidência você aqui - disse Yury, sorridente e entusiasmado. - Esse é o Davi, contador lá na empresa do meu pai. Estávamos justamente esperando uma mesa para almoçar e conversar sobre o bar - Gustavo ouvia tudo atentamente e Davi reservava-se a esboçar um sorriso forçado nos lábios. - Fiz o convite ao Davi de ajudar você a contabilizar os valores dos vinhos - Yury prosseguiu. - Podemos almoçar todos juntos. Olha que maravilha!



Continua...



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