De
quando em vez, somos assaltados por situações que nos despertam a proliferação
quase maquinal de uma porção de idéias capazes de explicar eventos um tanto
incompreensíveis. Foi o que me aconteceu hoje, durante o almoço. Servia-me da
refeição quando, da sala de TV – a qual se comunica com a copa por um portal
sem porta – minha ilustríssima mãe usou toda a sua esganação da voz para
assustar-me, num agudo sonoro, que, por pouco, não me fez largar a porcelana no
chão e transformá-la em mil pedaços. (Minha mãe é dessas figuras desavergonhadas para com a timidez, que fala alto, comunicativa, que não passa apertos por causa da sua capacidade incrível de falar sobre tudo com todo mundo.)
-
Eu não consigo entender isso! – esganiçou-se a minha mãe, sentada no sofá.
Surpreso pelo guincho repentino, tremi e olhei para ela, do outro lado da sala
de TV. Então, ela explicou-se. – Como alguém some assim, gente, do nada? Não dá
pra entender. Olha esse caso – pôs-se a narrar, o tom do absurdo claro nas
palavras. – A idosa tinha acabado de sair do banco com o marido, outro velho
também, só que ela atravessou a rua primeiro, deixando que o marido viesse
depois. No tempo em que ela cruzou a rua, um ônibus passou, o velho desapareceu!
Como isso é possível? Tanta gente desaparecendo assim! Eu não acredito nisso,
não. As pessoas vão embora porque querem – irritou-se e voltou a se calar.
Eu,
rindo resignado da situação, mancando do pé engessado (o qual presente ganhei
no auge da minha demência), voltei a me servir do almoço, no entanto, já agora
carregava comigo a inquietação levantada por minha mãe: “como que essas pessoas
somem assim, do nada?”. Não tive tempo de responder, mentalmente, às minhas
indagações sobre o fato, pois, no instante seguinte – eu mais interessado pelo
assunto, havia apurado os ouvidos para ouvir a matéria do telejornal – escutei
um homem, choroso, implorar à repórter que lhe achassem a mulher desaparecida,
uma jovem morena belíssima, que tinha desaparecido.
-
Meu amor, volta, por favor, eu te amo! – o homem queixava-se aos prantos.
-
Olha esse idiota! A mulher foi embora porque não te queria mais, simples! –
dardejou a minha mãe e, dessa vez, não pude conter a gargalhada. Percebendo o
meu riso, ela riu também. Como que cheia do assunto, desligou a TV, subiu as
escadas e foi descansar no seu quarto.
Contudo,
eu permanecia com as mesmas indagações: para onde eles vão? O que acontece? Como
acontece? Pensei em sequestros relâmpagos, porém logo desisti. Havia gente
desaparecida há dez anos, sem nenhum sinal de pedido de resgate. Poderiam ter
sido mortos – essa era a minha hipótese mais cruel – durante uma tentativa de
assalto, e os corpos foram desovados em algum lugar...uma boa possibilidade.
Não satisfeito, comecei a fantasiar. O governo poderia estar recrutando
pessoas, de diferentes faixas etárias, para realizar experimentos científicos,
numa empreitada pra melhoria da espécie humana ou algo do tipo. Quiçá, seres de
outros planetas vinham abduzindo as pessoas para estudarem a nossa raça,
preparando-se para uma guerra interplanetária que, dadas as datas de
desaparecimento, pelo ido dos tempos, já devia estar próxima. A minha cabeça
borbulhava de hipóteses interessantes quando, do seu quarto, minha mãe guinchou
– como toda mãe faz, depois que a gente pensa que o assunto já foi encerrado –
do quarto, remoendo o assunto pondo um ponto final.
-
As pessoas vão embora porque querem, eu já disse! – por fim, calou-se.
É...talvez,
ela tenha mesmo razão.
Terminei
meu almoço sem pensar em mais nada sobre aquilo.
Tiago Santos

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