quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

(crônica do dia) Para onde vão os desaparecidos?




De quando em vez, somos assaltados por situações que nos despertam a proliferação quase maquinal de uma porção de idéias capazes de explicar eventos um tanto incompreensíveis. Foi o que me aconteceu hoje, durante o almoço. Servia-me da refeição quando, da sala de TV – a qual se comunica com a copa por um portal sem porta – minha ilustríssima mãe usou toda a sua esganação da voz para assustar-me, num agudo sonoro, que, por pouco, não me fez largar a porcelana no chão e transformá-la em mil pedaços. (Minha mãe é dessas figuras desavergonhadas para com a timidez, que fala alto, comunicativa, que não passa apertos por causa da sua capacidade incrível de falar sobre tudo com todo mundo.)
- Eu não consigo entender isso! – esganiçou-se a minha mãe, sentada no sofá. Surpreso pelo guincho repentino, tremi e olhei para ela, do outro lado da sala de TV. Então, ela explicou-se. – Como alguém some assim, gente, do nada? Não dá pra entender. Olha esse caso – pôs-se a narrar, o tom do absurdo claro nas palavras. – A idosa tinha acabado de sair do banco com o marido, outro velho também, só que ela atravessou a rua primeiro, deixando que o marido viesse depois. No tempo em que ela cruzou a rua, um ônibus passou, o velho desapareceu! Como isso é possível? Tanta gente desaparecendo assim! Eu não acredito nisso, não. As pessoas vão embora porque querem – irritou-se e voltou a se calar.
Eu, rindo resignado da situação, mancando do pé engessado (o qual presente ganhei no auge da minha demência), voltei a me servir do almoço, no entanto, já agora carregava comigo a inquietação levantada por minha mãe: “como que essas pessoas somem assim, do nada?”. Não tive tempo de responder, mentalmente, às minhas indagações sobre o fato, pois, no instante seguinte – eu mais interessado pelo assunto, havia apurado os ouvidos para ouvir a matéria do telejornal – escutei um homem, choroso, implorar à repórter que lhe achassem a mulher desaparecida, uma jovem morena belíssima, que tinha desaparecido.
- Meu amor, volta, por favor, eu te amo! – o homem queixava-se aos prantos.
- Olha esse idiota! A mulher foi embora porque não te queria mais, simples! – dardejou a minha mãe e, dessa vez, não pude conter a gargalhada. Percebendo o meu riso, ela riu também. Como que cheia do assunto, desligou a TV, subiu as escadas e foi descansar no seu quarto.
Contudo, eu permanecia com as mesmas indagações: para onde eles vão? O que acontece? Como acontece? Pensei em sequestros relâmpagos, porém logo desisti. Havia gente desaparecida há dez anos, sem nenhum sinal de pedido de resgate. Poderiam ter sido mortos – essa era a minha hipótese mais cruel – durante uma tentativa de assalto, e os corpos foram desovados em algum lugar...uma boa possibilidade. Não satisfeito, comecei a fantasiar. O governo poderia estar recrutando pessoas, de diferentes faixas etárias, para realizar experimentos científicos, numa empreitada pra melhoria da espécie humana ou algo do tipo. Quiçá, seres de outros planetas vinham abduzindo as pessoas para estudarem a nossa raça, preparando-se para uma guerra interplanetária que, dadas as datas de desaparecimento, pelo ido dos tempos, já devia estar próxima. A minha cabeça borbulhava de hipóteses interessantes quando, do seu quarto, minha mãe guinchou – como toda mãe faz, depois que a gente pensa que o assunto já foi encerrado – do quarto, remoendo o assunto pondo um ponto final.
- As pessoas vão embora porque querem, eu já disse! – por fim, calou-se.
É...talvez, ela tenha mesmo razão.
Terminei meu almoço sem pensar em mais nada sobre aquilo.

Tiago Santos

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