Certos
finais de tarde, quando a brisa é mais fresca e o sol pinta de dourado, com toda
sua característica graciosidade, a verdejante da montanha – serpente adormecida
– emoldurada pela janela do meu quarto, vem-me à cabeça memórias de quando eu
nada era além de uma criança, metida nas regatas de algodão e nos shortinhos
combinando que a minha mãe se afeiçoava e me vestia.
Fui
um rapazinho calmo, quieto, apegava-me a qualquer coisa que pudesse me prender
a atenção por algum tempo. Sentado na varanda do fundo da minha, em finais de
tarde como esse, sentia o cheiro do café sendo passado na cozinha, pela minha
mãe, ao tempo que ela cantarolava suas canções favoritas, as quais, acredito
eu, costumava ouvi quando ainda era moça. Bonnie Tyler, Teresa Carpio, Phil
Collins, QUEEN, Celine Dion, Tracy Champion...e cantava como se apenas ela
existisse no universo.
Do
quintal, pela porta aberta, eu a observava cantar, enquanto terminava de encher
a garrafa térmica com o café quente, para mim, também, não havia mais ninguém
no universo além dela. Sempre fomos apenas nós dois e isso me bastava. Um
cuidava do outro, prestava assistência e não precisavam dividir o carinho com
terceiros.
A
rotina incansável, nossa, de mais ninguém, criava-me expectativa. Inda agora, depois de tanto tempo transcorrido
desde aquelas tardes de infância, após tantas mudanças nas vidas, nas casas,
nas pessoas e nos momentos, ouço a minha mãe cantar lá embaixo, na cozinha, com
o mesmo despudor de sempre, nenhuma vergonha, o som no volume máximo, os velhos
CDs desenterrados da coleção dela, sinto-me voltar nas memórias...
Eu ainda sou a criança quieta vestida no
conjuntinho de regata combinando, sentando no quintal, minha mãe não envelheceu
ainda, está passando o café, o sol é mesmo, a montanha é a mesma, a brisa não
mudou nem de gosto nem de sentido...tudo é a mesma coisa, embora eu saiba que a
magia do instante vai terminar quando o CD para de tocar.
Tiago Santos
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