Dedico esta crônica aos meus amigos, os quais não caberiam aqui se fossem todos citados. Que o tempo seja generoso conosco.
***
Estacionou
o carro em uma vaga um tanto quanto distante do destino final. Teria que
caminhar e, por isso, praguejava, contrariado com o mundo em plena manhã. À sua
frente, uma multidão se acotovelava em passos rápidos numa calçada estreita
para a quantidade de pessoas que por ela passava. Ele percebeu que elas não
olhavam umas nos rostos das outras e sorriu diante do fato estranho. Era como
se cada uma estivesse passando por ali solitárias, ao passo que nenhuma das
outras existiam, logo, não podiam ser percebidas nem muito menos olhadas.
Contudo,
em meio àquela gente toda, vislumbrou um olhar conhecido, perdido dentre tantos
outros olhares perdidos. Hesitou de primeiro, talvez não fosse quem pensou que
poderia ser. O suposto conhecido vinha rapidamente em sua direção, cabeça baixa
e mais magro do que da última vez que o vira há...quem sabe vinte anos...? Não.
Vinte e cinco, para ser mais preciso. Não poderia permitir que se fosse uma
outra vez, desaparecesse. Iria interceptá-lo ali mesmo. Caso não fosse o
conhecido, pediria desculpas e seguiria seu caminho.
-
Felipe...? – ele chamou assim que o homem passou ao seu lado. Para sua
surpresa, o passante estacou no lugar mesmo e ergueu os olhos para fitá-lo.
-
André...? – Felipe começava a rasgar os lábios num sorriso bucólico. – É você
mesmo...? – peito se inundava de alegria.
-
Há quanto tempo, meu amigo! – sem cerimônias, André puxou Felipe para si,
apertando-o fortemente entre os braços. – Que saudades, Felipe! – dizia enquanto
o apertava ainda mais. – Que saudade, amigo... – depois de compartilharem as
batidas dos corações, afastaram-se. Então André pôde perceber que os olhos de
Felipe não possuíam mais o mesmo brilho de vinte e cinco anos atrás. Pelo
contrário, estavam tristes e vazios.
Combinaram
de seguir para um Café do outro lado da avenida, onde poderiam conversar
melhor. Assim o fizeram, acomodando-se em uma mesa do estabelecimento quase inóspito.
-
Mas, então, conte-me. O que fez em todos esses anos, irmão? – haviam sido
educados juntos, sob o mesmo tempo, como sendo filhos da mesma mãe.
Amigos-irmãos. Porém a vida lhes traçou caminhos diferentes. – Soube que você
tinha casado com a Heleninha, aquela loirinha dos nossos tempos de colégio – André
sorriu, o peito retumbando de tanta excitação.
-
Ah, André – Felipe suspirou profundamente. André analisava o rosto descarnado
de amigo, as feições maltratadas. Isso o doeu. – A vida não foi tão justa
comigo...ver? – olhou fundo nos olhos de André. – O tempo fez questão de
passear por mim. Tanta coisa mudou desde que nos separamos. Já pensei até em
parar de viver.
A
revelação última assaltou André com uma punhalada no coração. Sempre que se
lembrava de Felipe, lembrava-se, obrigatoriamente, do sorriso que não saía do
rosto do amigo. Contudo, agora, aquele sorriso parecia tê-lo abandonado.
-
O que aconteceu, irmão...? – André perguntou preocupado.
-
Casei mesmo com a Heleninha – sorriu saudosista ao recordar a mulher. – Fomos felizes.
Mas nada dura paras sempre, neah? Já faz um bom tempo, ela me contou que estava
grávida e não me lembro de momento mais feliz na minha vida que não foi aquele.
Combinamos de comprar uma casa maior no interior, lugar mais tranqüilo para educar
nossa filha. E fomos em busca da casa. Só que, no caminho, eu perdi o controle
do carro... – as palavras embolaram-se na garganta quando as lágrimas vieram à
borda dos olhos, toldando a visão. – E eu não consegui salvar Heleninha nem a
minha filha que estava na barriga dela... – limpou as lágrimas com o dorso da
mão, como quem está com vergonha. Porém não precisava ter vergonha. Não, de
André.
-
Sinto muito, Felipe... – também tinha lágrimas nos olhos de André. Sentia-se culpado
naquele momento. Como pudera afastar-se tanto do seu amigo ao ponto de não mais
compartilhar das tristezas dele? Quando jovens, os dois riam e choravam juntos,
uma ligação fraterna. Chegaram a compartilhar até mesmo a mesma namoradinha na
meninice. No entanto, agora, corroia-se de remorso por ter se distanciado do
amigo.
-
Depois disso, - Felipe continuou – passei um bom tempo perdido e sem chão. O
tempo, como é de curso natural, também levou meus pais, e esse tombo foi ainda
maior.
-
Tio Antônio e Tia Soraia morreram? – André exasperou-se, o ar fugindo dos
pulmões momentaneamente.
-
Você sabe, meu pai não parava de fumar. Ele entrou com os cigarros e a fumaça
se encarregou do resto. Minha mãe foi pouco tempo depois, acho que se sentiu
sozinha, coitada. Foram cedo, eu sei. Mas, um dia, eles teriam que ir – a expressão
abatida de Felipe mostrava a conformação de tantas perdas sobre as costas. – Eu
perdi emprego, afastei-me da família...para falar a verdade, nem sei mais por
onde eles estão. E foi nessa época que pensei em ir embora também. Não fazia
mais sentido ficar aqui.
André
pensou em dizer “Por que não me ligou?”.
Entretanto, chegou à conclusão que ele também não ligara para Felipe em todos
esses vinte e cinco anos, deixou que os laços que os ligavam se tornassem mais
frágeis e se rompessem. Perderam completamente o contato. Culpava-se por isso e
sentia-se pequeno. Como pudera deixar o tempo machucar tanto a pessoa que mais
amou por tanto tempo? Não estivera presente para proteger e defender o amigo
nos momentos em que ele mais precisou. Como fora tão descuidado ao deixar o
irmão se ir...Enquanto tivera uma vida maravilhosa, Felipe tropeçara demais
pelo caminho. Agora sentia por isso...sentia muito.
-
André, eu preciso ir – Felipe forçou um sorriso, porém ele possuía verdade
nenhuma. – Estou tentando procurar emprego, recomeçar a minha vida depois desse
tempo conturbado. Vinte e cinco anos é muito tempo perdido – fez uma pausa
longa na qual os dois ficaram se entreolhando. Tristeza e alegria misturadas em
sentimentos indistintos. – Olha como são as coisas. Eu te reencontro depois de
tanto tempo e só te conto desgraças – riu de novo. – Foi bom te encontrar outra
vez, irmão. Dê abraços na família – levantou-se da mesa e saiu.
-
Espera, Felipe! – André gritou e Felipe parou mais à frente, antes de
desaparecer novamente. – Se pensa que vai embora assim, sumir outra vez, está
enganado. Eu vou te ajudar, porque nem mesmo tempo será capaz de nos afastar de
novo, irmão. E, agora, eu vou tomar conta do que é meu antes que eu o perca de
vez.
Selaram
o encontro com um abraço e uma promessa de seguirem unidos um ao outro por tempo indeterminado.
Tiago
Santos.
Hei!
Psiu! É você mesmo! Não adianta rir! Lembra daquele amigo que você não encontra
faz um bom tempo? Pois é. Ligue para ele, não se importe em dar o primeiro passo. Encontre-o no
Facebook, mande um e-mail ou recado pelo Orkut, um fax ou um sinal de fumaça, mas não deixe que ele se afaste
ainda mais. Pois os verdadeiros amigos são os elos que nos ligam ao passado e
aqueles que nunca irão nos abandonar no futuro.
Abraços.

O que podemos dar de mais importante ao amigo?? o tempo.. só ele aproxima e afasta.. mostrar os que sao amigos-irmaos ou irmaos-amigos nao importa.. o importante é estar com as pessoas que amamos..
ResponderExcluirboa crônica muleke .. estava precisando disso..
Abçs